terça-feira, 31 de março de 2009
DONA ABASTANÇA
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.
Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»
Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.
O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.
Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.
Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.
Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.
Manuel da Fonseca
Poemas para Adriano
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segunda-feira, 30 de março de 2009
O AVARENTO
Co'as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista está no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.
Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.
Fechado nele está, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas invenções, de ideias tortas.
Não emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!
Francisco Joaquim Bingre
Sonetos
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domingo, 29 de março de 2009
A CORRUPÇÃO, SEMPRE !
Portugal e os portugueses têm um problema com a corrupção. Ou antes: têm muitos problemas. A começar pela definição. Engloba-se no conceito muito que o não é, apesar de ilegal ou imoral. As cunhas, os favores e a preferência familiar ou partidária podem não ser verdadeira corrupção, mas pertencem às mesmas categorias de comportamentos ilícitos. Nem todas as irregularidades administrativas, adjudicações directas, nomeações e promoções integram necessariamente uma definição precisa de corrupção, mas não deixam de constituir comportamentos igualmente condenáveis. Licenças concedidas em condições especiais, alvarás obtidos mais rapidamente, derrogações efectuadas em planos legais e autorizações conseguidas em circunstâncias extraordinárias podem não ser sempre obtidos contra pagamento, mas são vizinhos da corrupção. Decisões discricionárias, subsídios individualizados e contratos selectivos podem ter várias causas, não automaticamente “luvas”, mas são parentes próximos da corrupção. Perdões fiscais ou de multas e olhos fechados perante certos gestos não são sempre actos corruptos, mas andam por lá perto. Finalmente, o tráfico de influências e a promiscuidade, que caracterizam a passagem da política ao negócio, do público ao privado, do partido à administração e vice-versa, não são tidos tecnicamente por corrupção, mas são, nesta família de comportamentos, os membros mais predadores e devastadores de uma vida pública decente.
Estes gestos, de difícil definição rigorosa, implicam vários conceitos essenciais. Acto ilícito; obtenção, contra pagamento, de favores e vantagens em detrimento de outrem; não cumprimento das regras legais e constitucionais (incluindo a da igualdade de oportunidades); e intervenção, em interesse próprio, junto de alguém com poder ou capacidade de interferir num processo de decisão. O problema é que muitos gestos não respondem necessariamente a todos estes critérios. Pode não haver pagamento, mas favor ou nomeação; pode não ser em interesse próprio, mas no de partido ou empresa; pode não ser explicitamente ilegal; pode não ser em detrimento de outrem; pode não estar previsto na lei. Mais ainda, pode ser atenuado e normalizado pela lei. Neste último caso, encontram-se, por exemplo, as situações de promiscuidade e tráfico de influências, para os quais as normas legais são particularmente brandas. Pertencer simultânea ou sucessivamente a uma empresa, uma associação de interesses, um grupo parlamentar e um governo, tratando dos mesmos assuntos, é possível em muitas circunstâncias. Já se viu entre nós muitas vezes. Negociar com uma empresa, primeiro em nome de um governo, depois, com o governo, em nome da mesma empresa, é possível, desde que se cumpram uns vagos e suaves períodos de branqueamento. Ganhar poder no governo e enriquecer rapidamente, logo a seguir, nas empresas, é possível e frequente, é mesmo considerado um exemplo de iniciativa. Ganhar e distribuir dinheiros de modo irregular, desde que se faça obra, de preferência social e a favor das populações, pode ser considerado um gesto de gestão virtuosa e popular. O favor partidário, sob a designação de confiança política, está devidamente consagrado na lei. Tem-se a impressão de que, em Portugal, há a boa e a má corrupção. A boa e a má promiscuidade. As boas são louvadas. As más são esquecidas.
Se a corrupção for de esquerda, só a direita reage. E vice-versa. Se for autárquica, só o poder central se insurge. E reciprocamente. Se for pública, só os privados protestam. E ao contrário. Se for de um partido, aos outros de contrariar. E assim por diante. Quer isto dizer que não existe qualquer espécie de tradição ou de cultura contra a corrupção, a promiscuidade e a cunha. Na verdade, os beneficiários são muitos: municípios, populações locais, associações desportivas, partidos políticos, empresários, proprietários, construtores, promotores imobiliários, funcionários públicos, políticos, banqueiros e comerciantes. Neste nosso pobre país, a corrupção é democrática. Herdámos a corrupção da ditadura, à qual acrescentámos a liberal. Recebemos a corporativa, enriquecendo-a com a socialista e a capitalista. Sem regulação à altura, o mercado gera corrupção, fraude e promiscuidade. Quando aparece o Estado, corrupção, fraude e promiscuidade são geradas. Do atraso económico e cultural, recebemos a cunha e o favoritismo; mas do crescimento fácil chegou-nos o casino. Da ditadura, tínhamos a corrupção escondida; da democracia, temos a corrupção exposta.
Que fazer? Creio que ninguém é capaz de responder. Só uma coisa se sabe: tudo começa na justiça. Mas, saber isso, com a justiça que temos, é o mesmo que nada.
António Barreto
Público
29 de Março de 2009
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VANITAS
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.
Prende a idéia fugaz; doma a rima bravia,
Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:
"Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!
Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!
Posso agora morrer, porque vives!" E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai - vaidade humana! - ao pé de um grão de areia...
Olavo Bilac
Poesias
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sexta-feira, 27 de março de 2009
CONCERTO DOS TINDERSTICKS
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos
pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto
dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte
José Tolentino Mendonça
Baldios
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quinta-feira, 26 de março de 2009
se um outro sol já nela se levanta
quota-parte de treva que anuncia
a traço grosso o rosto claro instante.
Olhos febris a boca estremecendo
à simples sugestão da queimadura
movimento subtil age os quadris
de um frémito possante os insinua.
Barco fundeado no horizonte
movimento do vento que se espanta
se acaso a luz feroz evidencia
prata líquida de fuel flagrante.
A noite inunda-te. Pueril respiração ao peito erguendo
o que espelha no mar sua moldura
zona de sombra onde tudo me diz
que antes mesmo da nudez já estavas nua.
Bernardo Pinto de Almeida
Segunda Pátria
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quarta-feira, 25 de março de 2009
A DEFESA DO POETA
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
dou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs em ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.
Natália Correia

Na Fotobiografia de Natália Correia, encontramos uma referência à sua defesa em Tribunal pela edição da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:
Em 1966 é condenada a três anos de cadeia – com pena suspensa – pela publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. O livro foi editado em 1966, pela Afrodite, com selecção, prefácio e notas de sua autoria.
“A Natália tinha preparado um texto – A Defesa do Poeta – para ler no tribunal [Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória(…)]. Mas o Manuel João Palma Carlos, advogado dela, disse-lhe que não o fizesse. É claro que os livreiros não podiam ter um único exemplar do livro [Poesia Erótica e Satírica]. Nessa altura, tive dezenas de exemplares escondidos em minha casa, e nem o meu marido sabia disso. O Fernando Ribeiro de Mello vinha cá de vez em quando buscar alguns.”
Branca Miranda Rodrigues
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terça-feira, 24 de março de 2009
DISTRACÇÃO??? (II)
Processo da derrocada na Rua 5 de Outubro - Meira Soares entrega pedido de penhora dos Paços do Concelho | |
Mata Cáceres desmente penhora "Resolvia-se com um telefonema. Há política nisto" Com uma cópia da ordem de pagamento efectuada a António Berenguel, datada de 20 de Fevereiro de 2008, o autarca frisou que "ele administrou essa verba paga em moldes tais que acabou por não ter sido integralmente paga a Meira Soares e à empregada dos pais como julgávamos, o que deu origem a toda esta confusão". Assim, conclui que "a Câmara pagou e o destinatário não recebeu", dado que "parte da verba que demos para pagar as indemnizações foi canalizada para pagar a casa", casa essa que a autarquia ainda não tem em seu poder. No entanto, Mata Cáceres lamenta que o professor universitário tenha conduzido esta situação até aos meios de comunicação social. "O que não faria com toda a certeza era ir por uma via desta natureza, suscitando a ideia de que a Câmara ia ser penhorada, quando este processo, na minha opinião, se tinha resolvido e clarificado com um telefonema. Cheira-me que aqui há outras situações. Eu também já perdi os meus pais e uma das coisas que nunca me passaria pela cabeça era utilizar uma qualquer situação relacionada com a sua morte para qualquer outro fim", declarou o edil portalegrense. "Choca-me que estamos na época em que estamos, e que este processo é aproveitado não no sentido de resolver, mas mais para provocar esta situação", declarou Mata Cáceres, admitindo que "não tenho dúvidas nenhumas de que há política nisto. A época é a que é. Não sou eu que quero tirar partido desta situação, porque não fui eu quem telefonou ao jornalista", mas "choca-me um bocado que a política chegue a este nível e que as coisas aconteçam desta maneira". Garantindo que toda esta situação "não me tira o sono", o autarca sublinhou que "a Câmara não está em eminência de ir à falência por causa disto" e que "a importância disto é um título de jornal e a fotografia do presidente da Câmara de Portalegre, tudo o resto é fantasia".
Até ao momento, Mata Cáceres ainda não contactou com o professor Meira Soares, mas confessou que não irá desperdiçar uma conversa com ele. "Ainda não consegui falar com o professor, ainda não fui capaz de lhe ligar e porque a partir de um determinado momento também já me sinto tocado por esta situação, mas não vou dispensar uma conversa com ele, porque não gosto de assobiar para o lado em coisas de determinada natureza", admitiu.
Contactado pelo nosso jornal, Virgílio Meira Soares declarou que a repartição do valor da indemnização "é um problema entre a Câmara e o advogado", pois a única coisa que deseja é ver este processo, que já se arrasta há seis anos, terminado. "A Câmara de Portalegre deve-me a verba já referida pelos jornais e isso é que conta, sem interessar quem estava encarregado de fazer a divisão. Isso é um problema que me ultrapassa. O Tribunal decidirá. E se a decisão me não agradar, pode a Câmara ficar, desde já, ciente de que recorrerei até ao limite - o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Perante o "calote", nada tenho a perder", confessou. Indignado com a afirmação do edil de Portalegre de que esta história terá interesses políticos, Meira Soares considerou falsa essa expeculação "porque estou afastado da política desde 1996". E acrescentou: "estou-me nas tintas para a política. Fosse o partido que fosse estava-me nas tintas, quero é que a justiça seja respeitada. Se imaginavam que isto era política tivessem cumprido as suas obrigações, tivessem lido as cartas e o artigo publicado no Fonte Nova e isso não fizeram". Assim, Meira Soares revelou que poderá levantar um processo contra Mata Cáceres. "Não quero que me ofendam e se o presidente da Câmara continua com isto leva com um processo-crime em cima por me estar a difamar", disse. Meira Soares enviou também uma carta ao presidente da Assembleia Municipal de Portalegre, na qual recusa qualquer ligação entre a política e este processo. "Os motivos que me moveram não estão relacionados com qualquer interesse político-partidário, resultando, única e simplesmente, de fazer valer um direito do foro pessoal que tem sido violado desde há mais de um ano e meio, e que resulta de circunstâncias trágicas, como é sabido", pode ler-se no documento, onde o professor diz ainda que "a penhora requerida em ano eleitoral, se é preocupante para quem ocupa os lugares executivos, só resulta de, pelo menos, falta de responsabilidade política". Apesar de estar afastado da política há vários anos e de reafirmar que não o movem razões políticas, Meira Soares admitiu que "espero que não me obriguem a regressar a qualquer actividade desse tipo, pela negativa".
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CORAÇÃO HABITADO
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.
Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.
Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
Eugénio de Andrade
Até Amanhã
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domingo, 22 de março de 2009
REFÉNS DA DEMOCRACIA
O cargo de Provedor de Justiça fica a dever-se ao 25 de Abril. Foi proposto e desejado por vários democratas, designadamente José Magalhães Godinho, ainda durante o anterior regime. Só após a revolução foi criado, primeiro por lei, depois pela Constituição. Até à data, foram sete os Provedores: Costa Braz, Magalhães Godinho, Almeida Ribeiro, Pamplona Corte Real, Mário Raposo, Meneres Pimentel e Nascimento Rodrigues. Todos se ilustraram pela independência e pela seriedade com que exerceram as suas funções. Defenderam os cidadãos em centenas de casos, tentaram controlar com severidade as actividades administrativas e protegeram, contra o Estado, vítimas de injustiças. Alguns tiveram originalidade na sua actuação, como Almeida Ribeiro que fazia semanalmente um programa na rádio e respondia directamente aos cidadãos que a ele recorriam. Recordo ainda o trabalho de Meneres Pimentel, prosseguido por Nascimento Rodrigues, na investigação sobre a condição prisional. Vários tiveram intervenções marcantes e eficazes na reparação de injustiças cometidas pelos poderes, sejam as Câmaras, seja o Estado central. Nem sempre a Administração e os ministérios responderam com pontualidade ou cooperaram, como era seu dever. Mas a paciência, a isenção e a tenacidade levaram muitas vezes a melhor. Todos fizeram inúmeras recomendações aos governos no sentido de corrigir as instituições públicas e respeitar os nossos direitos. Sem alarde, sem demagogia, todos cumpriram, creio, os seus deveres. A função encontra-se entre as muito poucas que a democracia portuguesa criou e que deve ser acarinhada. Ainda por cima, num país onde a Justiça é cara, o recurso ao Provedor é gratuito.
Nascimento Rodrigues espera há oito meses pela sua substituição. PS e PSD não se entendem para designar um nome com dois terços de votos possíveis. Entregaram-se a mais uma quezília inútil que os desprestigia e que destrói as instituições, tanto a Provedoria de Justiça como a própria Assembleia da República. Pretendem vantagens partidárias, querem-se humilhar reciprocamente e desejam obter uma vitória. Jorge Miranda, se foi proposto e se esteve disposto a aceitar, seria um excelente candidato e, certamente, um formidável e independente Provedor. Envolver a sua eventual designação em querelas miseráveis é a melhor maneira de corroer as virtualidades da possível designação. Por tudo isto, o Parlamento e os dois grandes partidos não têm perdão.
Esta história obriga a pensar mais largamente. As nomeações parlamentares, especialmente as que exigem dois terços dos votos, deveriam ser reexaminadas. Já outros casos suscitaram interrogações, mas nada foi feito a tempo. Os serviços de informação da República, por exemplo, ficaram longos períodos sem supervisão parlamentar, exactamente pelas mesmas causas, as chicanas partidárias. As entidades reguladoras, as altas autoridades e os conselhos superiores de designação parlamentar encontram-se todos em situações semelhantes, reféns dos partidos e à mercê dos negócios políticos e das vantagens que cada um daí pode retirar. É mais que tempo de olhar para estes processos de nomeação e reflectir serenamente. Não valeria a pena, por exemplo, associar o Presidente da República à escolha destes cargos, trazendo assim um suplemento de isenção e uma contenção necessária perante os negócios partidários? A legitimidade democrática indirecta seria preservada, mas a independência de juízo seria valorizada. Como se sabe, os conselhos superiores, as altas autoridades e as entidades reguladoras são em geral pouco respeitados, porque são sempre suspeitos de uma espécie de falha original provocada pela selecção partidária. Ora, tais entidades são necessárias ao bom funcionamento do sistema político e do mercado. Degradá-las é pior do que liquidá-las. Acreditar numa mentira é pior do que não acreditar em nada.
Infelizmente, a esperança em que tal revisão venha a ser feita é diminuta. Os princípios que presidem à organização da Administração e à composição das autoridades públicas não são inspirados pela liberdade ou pela independência. Ao contrário do que se poderia esperar, o regime democrático, em vez de se abrir, de se mostrar mais ágil e de se aproximar dos cidadãos, fecha-se sobre si próprio. Os partidos receiam cada vez mais a sociedade. Ligam-se a grupos económicos que lhes prometem obras e investimentos, mas afastam-se dos cidadãos. Apreciam quem depende de si. Gostam dos áulicos. Comovem-se com os caninos e os rastejantes. Mas temem os homens livres. Já com a Administração Pública, temos um regime de confiança política que consagra a propriedade governamental da função pública. A pretexto de obrigar a concursos para os cargos de menor importância, uma lei de 2005 transformou as nomeações dos dirigentes superiores em actos de mera confiança política do partido no governo. A ponto de decretar que os mandatos desses dirigentes (directores-gerais, inspectores, presidentes de institutos, etc.) terminam com as eleições e a formação de um novo governo. O que autoriza esses dirigentes a fazer política e campanha, ou a proteger os seus cargos. O que significa, em última análise, que podemos e devemos suspeitar da acção de qualquer dirigente superior: têm um evidente défice de isenção no serviço público. País estranho este que legaliza o favoritismo e legitima a desconfiança!
António Barreto
Público
22 de Março de 2009
Etiquetas: Portugal um País de Bananas Governado por Sacanas
PROJECTO DE SUCESSÃO
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.
António Maria Lisboa
Ossóptico e Outros Poemas
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sábado, 21 de março de 2009
CELEBRAR A PALAVRA
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas
Leva nas águas as grades
...
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
Tejo que levas nas águas
Manuel da Fonseca
Etiquetas: Adriano Correia de Oliveira, Dia Mundial da Poesia, Manuel da Fonseca, Poesia
sexta-feira, 20 de março de 2009
O MAGALHÃES
O sociólogo António Barreto proclama em voz alta: O Magalhães é o maior assassino da leitura, veja-se revista LER, número de Março. A António Barreto podemos creditar obra de alta qualidade, serenas reflexões sobre a sociedade portuguesa e grande objectividade nas análises. Pois bem, o seu comentário não suscitou resposta por parte dos responsáveis governamentais, nem daquele pitoresco e falador presidente da Confederação de Pais, o tal que pretende as Escolas abertas doze horas por dia, a fim de os paizinhos poderem assar cabritos nos pátios, no intervalo de umas jogatanas.
Ora, os progenitores estão fulos por os computadores entregues aos filhos não virem preparados para poderem ramboiar através do espaço como pretendem. Por assim ser estão a remeter os Magalhães para as Escolas pedindo o seu conserto, os professores respondem não serem técnicos informáticos e a festa continua.
Se são questionados, os responsáveis respondem dentro da toleima proverbial de minimizarem os problemas, enquanto os secretários de Estado, todos rebarbativos e formais, numa linguagem a imitar o malhador Santos Silva culpam os sindicatos pelo clamor contra a incompetência.
Sei por experiência própria quão difícil é um adulto sair do lote dos info-excluídos, também sei das extraordinárias capacidades dos computadores em nos facilitarem a vida e da sua indispensabilidade nos tempos correntes, a partir daí a máquina não pode suprir a falta de estudo e de leituras.
O violento desabafo de António Barreto resulta da constatação do continuado aumento da incompetência de mulheres e homens em escreverem e interpretarem adequadamente dada a sua relutância em fruírem a leitura. Mesmo na esfera da leitura utilitária os derrames existentes acompanhados pela continuada prática de exercícios para inglês ver acabarão por gerar uma multidão de iletrados.
A continuarmos assim – e vamos continuar – a desconfiança latente pelos homens de letras vai aumentar, não tardando muito a serem tolerados a custo, já faltou mais, até porque os bobos movimentam-se bem nesta terra de truques a contemplarem especuladores e dirigentes semi-analfabetos esperançados em que o Magalhães faça o milagre de conceder sabedoria a meninos e paizinhos.
A.F.
Etiquetas: Educação, Leitura, Partido Socialista
NONA SINFONIA
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
Ary dos Santos
O Sangue das Palavras
Etiquetas: Ary dos Santos, Poesia
quinta-feira, 19 de março de 2009
GOSTOS
.................................
sobras do rancho
3
caldo e toucinho
4
caldo de couves
chouriço com ovos
5
sopa de batata
carne guisada com batatas
vinho tinto
6
sopa de tomate
escalopes
macarrão
fruta
vinho branco
7
sopa primavera
pescada cozida
bife com ovo a cavalo
batatas fritas
esparregado
pudim
vinho branco, vinho tinto
café
8
sopa jeanette
linguado grelhado
tomates ricadona
frango na pucarinha
batatas estufadas
arroz crioulo
azeitonas receadas à moda da dona ema
queijo da serra
fruta
vinhos da região
café. brandy
9
cassolettes robert
anjos a cavalo
croquetes de marisco
salada astória
ganso do périgord
batatas saint fleur
queijos
perfeito de framboesa
montrachet branco. nuits-saint-georges les porets
café
conhaque
10
œufs à la coque truffés
anguilles d’arleux à la maître
civet de langouste au vin de banyuls
chevreau à l’ail vert
haricots à la vigneronne
salade angevine
fromages
navettes aux amandes
petit chablis. chambolle-musigny les amoureuses
les charmes
café
cognac
licores
11
consommé royal
homard à la bordelaise
truffes en cocotte selon colette
œufs pochés au champagne
râble de lièvre à la pirou
fenouil au vin rouge
riz condé
châtaignes limousines
fromages
parfait de chocolat
pomme maria stuart
riesling d’alsace. cheilly-les-maranges. givry.
merleau-ponty
café
liqueurs
cognac
Alberto Pimenta
Ascensão de Dez Gostos à Boca
Etiquetas: Alberto Pimenta, Poesia
quarta-feira, 18 de março de 2009
DISTRACÇÃO???
Sede do município de Portalegre pode ser penhorada por dívida a ex-reitor universitário

A origem de ambas as dívidas prende-se com o acidente que vitimou os pais de Meira Soares em 16 de Abril de 2003. O casal, com perto de 80 anos, vivia com a empregada numa casa arrendada, no centro histórico de Portalegre. No espaço contíguo, onde havia um imóvel entretanto demolido, estavam em curso, com licença camarária, as escavações necessárias à construção de um novo prédio. Durante a noite, subitamente, a residência do casal desmoronou-se, morrendo ambos, enquanto a empregada escapava com ferimentos.
Processados por negligência, os vários responsáveis da obra que terá causado o desastre acabaram por ser absolvidos, uma vez que o crime não foi considerado provado. Paralelamente, Meira Soares pôs uma acção contra a câmara, reclamando uma indemnização por considerar que a autarquia tinha sido co-responsável pelo que aconteceu, enquanto licenciadora e fiscalizadora da obra.
Já em Julho de 2007, o ex-reitor e a empregada dos pais chegaram a um acordo com toda as partes: câmara, dono da obra, empreiteiro, autor do projecto, técnico responsável pela execução e um fiscal camarário. Nos termos desse entendimento, Meira Soares receberia um total de 70 mil euros, sendo 33.727 euros da responsabilidade do município e o restante dos particulares. Quanto à outra vítima, o acordo homologado pelo juiz, e transitado em julgado logo a seguir, determinava que a autarquia lhe pagaria 4918 euros e as outras partes um valor próximo daquele.
Segundo se diz no requerimento entrado em tribunal ontem, o município pagou apenas uma parte daqueles valores, mais concretamente 14.630 euros a Meira Soares e 2090 à empregada. Razão pela qual ambos pediram a penhora da sede do município, penhora essa que poderá ser concretizada de imediato, uma vez que a obrigação de pagamento resulta de uma decisão judicial.
O antigo reitor, que entre 1989 e 1993 foi presidente da Assembleia Municipal de Portalegre (PS), adiantou ao PÚBLICO que a parte da dívida relativa aos particulares, 36.272 euros no seu caso, foi integralmente saldada em Outubro de 2007, respeitando a dívida apenas ao município. Meira Soares diz que a autarquia lhe pagou o valor recebido de uma única vez, mas já depois de os particulares terem pago a totalidade.
Após esse pagamento, a sua advogada lembrou repetidamente a dívida e em Agosto o próprio escreveu um artigo num jornal local, o Fonte Nova, onde afirma que a câmara ia passar por “uma grande vergonha” se não pagasse. Já este ano a advogada comunicou ao município que avançaria com a penhora se o pagamento não fosse feito até ao passado dia 15 de Fevereiro. “Não foi e eu achei que já chega”, concluiu Meira Soares.
“Distracção”
“Só pode haver aqui alguma distracção, ou mal-entendido”, diz José Mata Cáceres, presidente da Câmara de Portalegre. O autarca, independente eleito nas listas do PSD, diz que “estava completamente convencido” de que a indemnização estava paga. “É uma coisa que não me passa pela cabeça que não tenha sido resolvida, muito menos com o professor Meira Soares e muito menos pela situação em que tudo aconteceu”, acrescenta Mata Cáceres. Hoje, contactado pelo PÚBLICO, disse não ter ainda uma explicação para a falta de pagamento.
18.03.2009
22h20
José António Cerejo
Jornal Público
Etiquetas: Câmara Municipal de Portalegre, Portalegre
Nº 3 DA OPS!

Apresentação: Crise, tempo de grandes decisões
Com Manuel Alegre, Henrique Neto, António Carlos dos Santos, Jorge Bateira e Nuno David
Poderemos esperar uma maioria absoluta sem reconhecer a necessidade de alternativas que rompam com muitas das políticas do passado, existindo em paralelo o espaço de reflexão e as propostas políticas protagonizados pelo movimento de Manuel Alegre? Mergulhados numa espiral depressiva, precisamos mais do que nunca de ideias e de actores políticos inspirados por uma visão de denvolvimento do País que seja sustentável nos planos institucional, económico e social.
Com um dossier dedicado à Economia e às grandes decisões em tempo de crise, a revista ops! lança-se nas raízes, nas ameaças e nas oportunidades criadas pela crise. Contando com um editorial de Manuel Alegre, com o dossier coordenado por Jorge Bateira e uma entrevista a Alfredo Bruto da Costa, participam neste número diversos investigadores e actores políticos socialistas e independentes, como José Castro Caldas, Nuno David, João Correia, João Ferreira do Amaral, José Reis ou Elísio Estanque.
Este é um tempo de viragem, e por isso de grandes decisões.
A crise e as suas soluções foram os temas de debate que se realizou no Hotel Altis, às 18h30, com Manuel Alegre, Henrique Neto, António Carlos dos Santos, Jorge Bateira e Nuno David.
Escrevem neste número Manuel Alegre, Jorge Bateira, Henrique de Melo, João Correia, Nuno David, João Ferreira do Amaral, José Castro Caldas, Elísio Estanque, Luis Tito, Ernesto Silva, Maria José Gama, Sérgio Pessoa, Pedro Tito Morais, Ana Cardoso, José Reis, Catarina Frade, Eduardo de Oliveira Fernandes, Maria Clara Murteira e Ricardo Paes Mamede.
ops! Nº 003 . MARÇO 2009
Crise, tempo de grandes decisões
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VISITA À FÁBRICA DA REALIDADE VIRTUAL
Fomos ver como funcionam as tecnologias aí instaladas.
Entre os principais atractivos do ICT-VR encontra-se o quiosque interactivo Touch Light, que permite manusear imagens fixas ou em movimento, sem qualquer toque no ecrã.
Mas nem só de quiosques vai viver o ICT-VR: no vídeo que se segue pode descobrir dois tipos de projecção estereoscópica, bem como scanners e óculos 3D.
O ICT-VR pretende actuar como uma âncora da promissora indústria da realidade virtual.
O projecto, que está orçado em 7,5 milhões de euros, prevê atrair para um espaço com mais de 1400 metros quadrados empresas tecnológicas que pretendam desenvolver projectos para as áreas da realidade virtual.
A nova entidade prevê apoiar essas empresas através da formação e partilha de equipamentos de desenvolvimento de conteúdos. O ICT-VR vai estar integrado em redes ibéricas e mundiais de produção de conteúdos de realidade virtual.
Hugo Séneca
Exame Informática
Etiquetas: Instituto Internacional de Tecnologias de Realidade Virtual, Portalegre, Realidade Virtual
PORTALEGRE
ESTAÇÃO
De Portalegre? Sei onde fica…
Fui lá um dia
co’a tia Anica!
Tinha lá primos
e uma cunhada.
Conheço bem.
Vale a jornada!
Tem coisas belas
simples, singelas
de nobre terra:
a volta à Serra,
a fonte nova
e uma grande árvore
cheia de brio
quer esteja quente
ou faça frio
lá no Rossio
Tem a Corredoura
mais o Bonfim
(e alguns fulanos
assim-assim…)
E tem o Corro
e a grande Sé
que é imponente
p’ra toda a gente
quer tenha ou não
(queira-o ou não)
a sua fé.
E tem comércio
bem aviado
mais a indústria
de fiação
com bom mercado
p’ra dar o pão
afiambrado!
Vale bem a pena
viver-se lá:
tem gente grada
bondosa, amena
(calva ou barbada)
como não há…
***
Olhe o combóio que vem chegando!
Então adeus. Tive prazer
em conversar. Céus, que está frio
neste lugar!
Sim. Portalegre… Sei onde fica!
Fui lá um dia… Co’a Tia Anica.
mais o Bonfim
(e alguns malandros
assim-assim…).
PORTALEGRE
A cidade, com o tamanho que lhe é próprio, cresce na noite até ao alvorecer. Os sonhos dos habitantes das casas imersas na escuridão que pouco a pouco se desvanece, vão apanhar o dia pela sua cabeleira de claridade. As cidades têm nome. Secreto ou simbólico, ele é contudo o nome que as caracteriza, dado pelos séculos ou pela inspiração do Mundo.

A cidade… Como um pássaro numa árvore da aba da Serra a vejo agora, a podemos ver agora. Cidade de ruas estreitas onde os desejos e os sentimentos, as amarguras e os dias felizes, os antigos passos cadenciados de carruagens desaparecidas, hábitos desaparecidos, rostos e figuras desaparecidas, deixaram uma sombra de nostalgia. Cidade de coisas novas envolta em passado e ruídos novos, cidade de monumentos onde o espírito cruzou o espírito, onde a grandeza se fixou em pedra, em madeira, em arabescos, em cores indistintas. Cidade que roda como um rosto amado num espelho de casas e nuvens rumorosas. Cidade de torres, cidade de vistas largas onde por vezes a paisagem alarga as vistas curtas. Por estas ruas és feita de passos cadenciados, estas ruas que circundam o teu corpo cravejado de portas, de lugares fecundos, de ausências, de desejos e espantos, de naturalidade e fé, de bondade e de maldade, do sereno existir duma cidade. Povoação de telhados confusos, cruzados, de chaminés com seus fumos, com seus lutos, com seu adivinhar de varandas e ninhos de gente. Cidade das ruas velhas e sonolentas, ásperas, doces e pérfidas, ruas quotidianas sempre diferentes, sempre abertas aos ventos, ao sol, ao revoar das lembranças daqueles que te sentiram com eles dando a volta ao mundo em que existes e te perpetuas. A velha rua dos Potes, do Comércio, a Corredoura, a rua dos Canastreiros, os teus largos diversos - numa casa só se podem adivinhar. Perene regra de vida que é esta em que me é definido o teu povo anónimo e mulheril, viril e pobre, rico de semelhanças com o povo de outrora, de outras terras, da terra mãe que é a terra do homem do dia-a-dia, eterno no seu rumorejar cordial e absorto, com bocas abertas para o riso e a maledicência, para os nomes da ironia e da piedade. Cidade de árvores citadinas, civilizadas, mas que não perderam ainda o seu ar de mistério natural. Cidade de portas vermelhas, de gaiolas e engaiolados, de roupas e gente pendurada, de frutos e de tostões, de igrejas e misericórdias, de impiedade e destino certo, cidade audaz e nobre, loquaz e linguareira, cidade de nomes de gente que a gente inventou, cidade onde os quartéis se entrecruzam com a memória do passado, heroicidade e frustres vivências. Cidade de santos e cruzes para os sete reinos de santidade e perdão, cidade que ao trabalho consagra os dias da sua viagem rotineira, cidade de brazões, de motas, de carroças no mercado, de automóveis e operários, de arte e de artistas, de pessoas que comem e que procuram comer, cidade de contrastes e proibições, cidade melancólica, soturna, alegre, robusta e mercantil, de cabritos e veterinários, de coisas de barro e do barro das coisas que se multiplicam, cidade de brinhol e café, de poeira e polícias, de legumes dentro do desejo incompleto dos nostálgicos do Oceano, pois a fauna do mar das cidades é inconfessável. Se dos teus monumentos me aparto à realidade os concedo: cidade de palácios e azulejos, cidade de pedra e cal onde as fontes iluminadas de figuras e estátuas, de relevos e volutas, de tradição e lenda desenham nas casas senhoriais um segmento de realidade temporal. Cidade das janelas e dos longes do além, a voz que de ti me chega é dolente como o ruído das praças por onde se expande a vida dos que te habitam e te visitam. Cidade de jardins onde o amor se acolhe e surge. Cidade de jardins suspensa no fremir dos cafés, dos cantinhos da má-língua, da gente que toda a gente conhece, da gente que não se sabe se é realidade ou hábito, gente de nomes sonoros, de tradição sabida, nomes que estalam na língua como um pregão, cidade justa e injusta, atenta e desastrada, nobre cidade onde por vezes os homens não se medem aos palmos. Cidade prenhe de velhos, vasos a caminho de outra cidadã, plantas que o tempo vai lançar noutra floresta, cidade de árvores e arbustos sob as estrelas e a lua, no suor dos Verões, no pó da velhice que é humana e perdura. Cidade onde à juventude se pode dizer que um lugar será diferente se o olharmos com olhos intactos, generosos. Cidade de lagos domesticados e serenos, cidade que se vê e se apalpa, se passeia e se canta, cidade sentada no jardim e sobre os seus pensamentos. Cidade onde há sempre uma flor à entrada dos sonhos dos poetas de bronze e de carne palpitante, onde as flores podem ser de ferro para as estátuas amarguradas. Cidade dos castelos entre entontecidos e maravilhados, cidade que agrada às crianças, cidade da chuva e das vielas, das serras azuladas ao crepúsculo do cantar dos campos, do casario, dos miradouros e das sombras, cidade de linhas trémulas na noite que se expande contra o seu rosto pouco a pouco diluído, pouco a pouco sumindo-se numa outra viagem para o sono dos homens, do mundo, das cidades onde a frescura corre já anoitecida, inocente e imutável, cidade que se conserva desenhada, fantástica, harmoniosa e prudente no coração das casas e dos que a habitam com o seu indistinto e saudoso aceno de despedida.
poemas de Nicolau Saião
imagem de M. Almeida e Sousa
Etiquetas: M. Almeida e Sousa, Nicolau Saião, Poesia, Portalegre
terça-feira, 17 de março de 2009
CÁ NESTA BABILÓNIA
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Luiz Vaz de Camões
Sonetos
Etiquetas: Luiz Vaz de Camões, Poesia
segunda-feira, 16 de março de 2009
ELES SÃO RICOS PORQUE...
Não sei se é possível imaginar como são tratados os trabalhadores que são escravizados por este cavalheiro...
Por mim, pode ir à bardamerda!
L.
Etiquetas: Merceeiro do Modelo e Continente, Novos Escravos, Trabalho
COMO EU NÃO POSSUO
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da côr que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lôdo.
Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...
Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
...
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emmaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...
Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fôsse aquêles seios transtornados,
Se fôsse aquêle sexo aglutinante...
De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destrôço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.
Mário de Sá-Carneiro
Dispersão
Etiquetas: Mário de Sá-Carneiro, Poesia
domingo, 15 de março de 2009
AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES
Mais do que nunca, ou mais do que a maior parte das vezes, a governabilidade está em causa. Mas sobretudo a capacidade para resistir a esta tremenda crise que a todos ameaça roer até aos ossos. É certo que parte da crise vem de fora. Mas também vem de dentro, do governo, da banca e dos empresários. Por gestos e omissões. Por terem acreditado em miragens. Por não terem previsto, nem terem preparado o país e as empresas para as dificuldades. E por se terem deixado envolver no clima de especulação e complacência. Agora, é tarde. O inevitável será pior do que se julga. E não há subsídios, garantias, benesses, Magalhães e obras que cheguem. A aspereza que se avizinha é tal que, sem governo forte, com visão, responsabilidade, duração e apoio, não se evitará o pior: a pobreza. Ainda por cima, o ambiente de imoralidade pública e privada em que se vive não é de molde a criar confiança.
A necessidade de maioria absoluta, de um só partido ou de uma coligação, é evidente. Uma legislatura completa é sempre útil, mas indispensável em tempos de crise. Já sabemos hoje que os quase trinta ministros em trinta anos na Educação, nas Finanças, na Saúde, nas Obras Públicas e outros ministérios foram causas de desgoverno. A estabilidade, cujo mérito está na moda negar, é um valor precioso. Resistir à crise económica e social dos próximos anos exige tenacidade na acção política. As grandes reformas do Estado e da Justiça, por exemplo, não ficam garantidas com uma maioria absoluta, como o governo de Sócrates demonstra. Mas não se fazem com governos curtos de transição e sem apoio parlamentar. Essas reformas, assim como os grandes projectos (TGV, aeroporto, barragens, energia, etc.) não podem ficar eternamente em discussão. Não se deve repetir Alqueva, projecto com mais de quarenta anos de existência e de vida atribulada, cujos custos se elevaram a várias vezes o previsto e o necessário.
Tudo leva a crer que não haja maioria absoluta de um só partido. O PS, cercado de todos os lados, fascinado com a sua propaganda e vítima da sua auto-suficiência, só por milagre lá chegará. O PSD, padecendo de uma flagrante insuficiência, nem por milagre. A crise social e económica tem vindo a fragmentar o eleitorado: nenhum partido conseguiu congregar em si a esperança ou a confiança numa resolução possível. Todos os partidos sabem isso. Mas todos vão negar a evidência. Por isso teremos direito aos mais banais lugares-comuns. Estão aí para ganhar e não colocam a hipótese de não alcançar a maioria. Recusarão sequer discutir a ideia de coligação. Não vão dizer com quem podem ou querem governar.
Não é honesto que o PS, em caso de necessidade, deixe em aberto todas as hipóteses: aliança de esquerda com o Bloco ou o PCP; com os dois; bloco central com o PSD; ou coligação oportunista com o PP. Como não é sério que os outros partidos, à direita ou à esquerda, deixem para depois dos resultados a decisão de participação no governo e a selecção do aliado. Todos terão argumentos marialvas para recusar dizer o que pensam e o que querem. Infelizmente, o eleitorado não tem meios de o exigir.
Apesar de existir uma enorme promiscuidade, a política portuguesa é particularmente crispada. Nas Câmaras, a cumplicidade entre partidos, autarcas e interesses pessoais é medonha. Nos grandes negócios de Estado e privados, a colaboração entre políticos dos dois grandes partidos, com a respectiva troca de favores e de influências, é assustadora. Este clima não tem tradução nas relações políticas formais entre partidos. O debate parlamentar é infantil, vive de zangas e berros. É enorme a dificuldade em fazer acordos parlamentares sobre o que importa. Ora, a crise económica e social, assim como as grandes reformas e os grandes projectos, exigem esses acordos. Não se trata de nenhuma forma camuflada de união nacional, nem de pacto de regime com o único objectivo de partilhar poderes e migalhas. Mas sim de acordo adulto e substantivo sobre alguns programas e projectos. Esse género de acordos só foi possível em condições excepcionais e por obrigação ditada de fora. Imposto pelos militares em 1975: foi o pacto entre o MFA e os partidos. Mais tarde, forçado pela União Europeia, com o pacto de estabilidade. A Aliança Democrática de 1980, financiada por empresários, e o Bloco Central de 1983, solução de recurso, foram frágeis e efémeros, não chegam a ser exemplos.
Acordos adultos e fundamentados, entre partidos ou entre partidos e organizações sociais, foram feitos em muitos países que, com isso, não viram diminuída a democracia. Pelo contrário, tiveram melhores condições para governar e enfrentar as crises. Fizeram-se na Alemanha, na Holanda, em Espanha ou na Itália. No Senado americano, há poucas semanas, efectuaram-se acordos importantes que permitiram o início de um programa de emergência. Até na União Europeia, na Comissão e no Parlamento, há indícios de cooperação séria entre partidos. Em todos estes exemplos, não houve mortes e feridos, os países souberam melhor resolver os seus problemas. Não parece, todavia, que os partidos portugueses estejam à altura das suas responsabilidades. Triste sina!
António Barreto
Público
15 de Março de 2009
Etiquetas: Portugal um País de Bananas Governado por Sacanas
NÃO CREIO NESSE DEUS
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!
António Aleixo
Este Livro que Vos Deixo
Etiquetas: António Aleixo, Poesia
sexta-feira, 13 de março de 2009
tocava as folhas, de zinco, duas telhas partidas,
a chaminé disfarçada de negro. O que se vê
da minha janela virada a oeste demora o tempo
entre as passagens da casa, vejo metade do rio,
metade do jardim, a rua toda, uma árvore a morrer
cada mês que passa. Este acto de estar tão parado
traz sombra de hesitação e temor, fecho os olhos,
heróis da infância recuperam a memória, roseiras
tiradas aos campos ficam em arco com o arame
preso, o mar tão longe da cidade grande, conchas
numa gaveta, o Almanaque aberto a meio com uma fita
encarnada. O que se vê da minha janela é mais
para dentro de mim, vou saber o que arde
nesta inquietude, vou semear paciências, rainhas
dos prados.
Helder Moura Pereira
À Luz do Mistério
Etiquetas: Helder Moura Pereira, Poesia
quinta-feira, 12 de março de 2009
Já deste leis a mundos e nações,
Heróico Portugal, que o gram Camões
Cantou, como o não pôde um ser humano!
Zombando do furor do mar insano,
Os teus nautas, em fracos galeões,
Descobriram longínquas regiões,
Perdidas na amplidão do vasto oceano.
Hoje vejo-te triste e abatido,
E quem sabe se choras, ou então,
Relembras com saudade o tempo ido?
Mas a queda fatal não temas, não.
Porque o teu povo, outrora tão temido,
Ainda tem ardor no coração.
Saúl Dias
Dispersos
Primeiros Poemas