terça-feira, 29 de março de 2011

SANTA TERESA E AS PROSTITUTAS

Recebi hoje uma carta do José Bento
que dizia sentir-se um rato diante de Santa Teresa
eu gosto tanto dele, posso dizer o mesmo
mas temo seja o que for
de incalculável

Diante de um rato experimento
não exactamente repulsa para a qual sou demasiado fraco
mas uma tristeza submersa
dissimulada na própria forma
lembro-me no meu quarto há muitos anos
a ratoeira armada debaixo da cama
e o deslizante rumor quase inaudível
cortado por um dique mecânico
um cheiro a folhas mortas apoderava-se da superfície
como se alguma coisa mais longínqua
ficasse presa daquele artifício

Tenho também uma história cómica com ratos
que me custou hora e meia da maior vergonha
reuni em minha casa alguns técnicos de saúde
e voluntários dessas causas
para projectar uma ajuda às prostitutas
e um rato circundou, um por um, os sapatos dos presentes
e tentava subir os degraus da escada numa necessidade
que se diria invencível
as pessoas eram educadas e fizeram todas de conta
mas eu estava para ali
afundado num desespero

Quando por vezes vejo tombar
pelos altos degraus a minha vida
procuro pensar nos dois ou três interesses que me restam
entre eles Santa Teresa e o drama das prostitutas


José Tolentino Mendonça
Estrada Branca

Etiquetas: ,

sábado, 26 de junho de 2010

O POEMA DE DEUS

Edificar o poema de Deus

É construir a imagem de Deus para a apagar,

Apagá-la para conhecer Deus.

Maurice Bellet

Em certa medida, ninguém é mais descrente do que um crente. A austeríssima proclamação "a Deus nunca ninguém o viu" é um livro sagrado dos cristãos que, tranquilamente, a profere (a Primeira Carta de João). É difícil imaginar um homem mais blasfemo do que Job, do qual se diz: "onde existe homem igual a Job, que bebe a blasfémia como quem bebe água?" (Job 34, 7). E, no entanto, a sua teologia protestativa inspira há séculos percursos e apropriações de radical assentimento para com a questão de Deus. O Livro de Coeleth, esse niilista intransigente, não deixou de ser lido e comentado como modelo edificante para o conjunto dos crentes. Jeremias dizia que, se fosse possível, preferia esquecer-se de Deus; e a saga de Jonas relata os desmandos humorísticos de um profeta que mantém com Deus um conflito de opinião.

Um dos mestres espirituais do Ocidente, Santo Agostinho, é autor de uma poderosa, mas também desconcertante biblioteca sobre Deus, se atendermos ao que diz: "Melius scitur Deus nesciendo" ("Deus conhece-se melhor na ignorância") ou "Si comprehendis non est Deus" ("Se pensas tê-lo compreendido, então não é Deus"). Os místicos de todos os tempos exploram infatigavelmente vias apofáticas, que desconstroem e ultrapassam a presumível estabilidade das representações. De Pseudo-Dionísio (fins do século V, inícios do VI): "Ousemos negar tudo a respeito de Deus para chegarmos a esse sublime desconhecimento que nos é encoberto por aquilo que conhecemos sobre os restantes seres, para contemplar essa escuridão sobrenatural que está oculta ao nosso olhar pela luz"; a Dietrich Bonhoeffer, morto em Berlim em 1943 por conspirar contra Hitler: "Perante Deus e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo e até à cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exactamente assim, somente assim ele está connosco e nos ajuda."

Em certa medida (numa misteriosa medida), ninguém é mais crente do que um descrente. O universo de Saramago é "um mundo às avessas" em relação ao mundo bíblico e cristão, como Eduardo Lourenço justamente o classifica. Mas nunca é de mais sublinhar que é sobre esse mundo que ele trabalha, com ira e sedução, afastado e, ao mesmo tempo, incapaz de alhear-se definitivamente. Recorrendo a tudo, epifanias e resmungos, preces e chistes, risadas e silêncios intensíssimos, em páginas que, umas vezes, alcançam uma religiosidade que se diria absurda e, outras vezes, incólume. No último dos cadernos publicados, José Saramago escreveu: "Os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia." Esperemos que existam também teólogos capazes de aventurar-se pelos caminhos escabrosos de uma literatura que, no limite, não desiste de ser desconstrução e construção do poema de Deus.


José Tolentino Mendonça
Padre e poeta

Etiquetas: , ,

terça-feira, 12 de maio de 2009

SEGREDOS

Para Maria de Lourdes Pintassilgo

Segredos de uma espécie tão rara
na altura das grandes migrações
a vida pobre os bosques
o vento arrasa nuvens pelo céu
sem outro saber

O tempo era maior
do que se dizia
e ela dispunha-se a contar tudo
do mesmo modo delicado

José Tolentino Mendonça
De Igual para Igual

Etiquetas: ,

sexta-feira, 27 de março de 2009

CONCERTO DOS TINDERSTICKS

Impossível dizer até que ponto
a rapidez de tudo
atinge as paisagens na sua certeza
o significado dos instintos
desde muito cedo
os modos de travessia, os receios
imagens em que não pensamos

pela noite tua voz descreve
isso de nós que não tem defesa
um amor
largado às sombras, irreconhecível
até de perto

dizem que se tratou de
derivas, ingenuidades, ilusões
o teu amor é um nome qualquer
que parte

José Tolentino Mendonça
Baldios

Etiquetas: ,

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

TEOREMA

Diante do espelho vê rostos além do seu
e a loucura é reconhecê-los entre os mortais
esses rostos silenciosos e esquivos
tão fácil seria chamá-los
celestes

Mas ela era terrena tão por terra
conduzia a ondulação dos sentimentos
não a entendem?
Ela deixava quebrar os vasos só para os ouvir
porque tudo tem uma voz mesmo as coisas mudas
e o silêncio é uma ímpia forma de desobediência
Ela marcava um por um
Umbrais códices colheres
Para que tudo estivesse unido
Sob o frio ordenado do visível

De noite porém afundava-se no lago
e lá adormecia
De noite levava a espingarda à janela
e ficava a ouvir não os tiros
mas o incrível silêncio que sucede a cada tiro
De noite dizia-se vacilante e perdida

Depois vinha o dia e a rasura
a repetida ordenação que os acentos concedem
às palavras
a quase paixão que jamais tocava os seres
sempre só a sua representação

José Tolentino Mendonça
Longe Não Sabia

Etiquetas: ,

Site Meter