quarta-feira, 29 de agosto de 2012

NOVO LIVRO DE RUI CARDOSO MARTINS

Chega às livrarias a 24 de Setembro o novo livro de Rui Cardoso Martins 
 



































O narrador parte com quatro amigos, todos eles a atravessarem uma fase menos boa nas suas vidas, para uma viagem através dos Estados Unidos da América. 
De Nova Iorque até ao Sul profundo e em seguida para o Norte, até às Cataratas do Niagara, já na fronteira com o Canadá, atravessam um país de profundos contrastes onde vão viver aventuras umas vezes divertidas, outras perigosas, se não mesmo fatais. 
A viagem é, para cada um deles, um encontro sem concessões consigo mesmo e com as memórias de vidas muito diferentes, em que tudo se joga e às vezes tudo se perde, mesmo a vida.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O PORTALEGRENSE RUI CARDOSO MARTINS É O VENCEDOR DO GRANDE PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA

A obra Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins, foi distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela Associação Portuguesa de Escritores/Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (APE/DGLB), foi hoje anunciado.



Deixem Passar o Homem Invisível, editada pela Dom Quixote, foi a obra escolhida pela maioria dos membros do júri deste ano presidido por Eugénio Lisboa e constituído ainda por Luís Mourão, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Serafina Martins. Apenas Eugénio Lisboa teve outra escolha para o galardão deste ano, tendo-se manifestado a favor de “O Chão dos Pardais”, de Dulce Maria Cardoso (Asa), avança a APE em comunicado.

A obra de Rui Cardoso Martins, que irá receber um prémio pecuniário de 15 mil euros, foi a escolhida entre as 85 a concurso. Deixem Passar o Homem Invisível é o 24º trabalho distinguido pela Associção Portuguesa de Escritores.

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RUI CARDOSO MARTINS


Rui Cardoso Martins nasceu em 1967, em Portalegre, e tirou o Curso Superior de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa.
É jornalista fundador do
Público, onde mantém a crónica “Levante-se o Réu” (Pública), das mais antigas da imprensa portuguesa, com dois prémios Gazeta de Jornalismo.
Como repórter cobriu, entre outros acontecimentos, o cerco de Sarajevo e Mostar, na Guerra da Bósnia, e as primeiras eleições livres na África do Sul.
Argumentista fundador e sócio das Produções Fictícias, é co-criador do programa satírico Contra-Informação, que escreve desde o primeiro episódio.
Foi co-autor de Herman Enciclopédia, escreveu para Conversa da Treta (rádio, televisão e teatro) e para o jornal Inimigo Público. Co-autor da série dramática Sociedade Anónima, da RTP. No cinema, é autor do argumento e guião originais da longa-metragem Zona J.

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sábado, 25 de julho de 2009

a carne queima a sombra e a memória.
deixa sobre os olhos um traço negro.

a água não consegue lavar a cinza deste corpo,
sem membros, o tronco enegrece sobre a terra,
deixa nas árvores o último grito –
lançado na hora do abate.

que corpo resguardava esta carne?
trago às palavras um nome, um gesto, uma fronteira.
sem vida, o meu olhar descobre nas vísceras
vestígios de saudade
que a tarde não conseguiu matar.

sangue apenas?

coágulos dissolvem o centro da cidade.
o metal atravessa as estrelas,
reconhece na carne os odores da última viagem.

que noite vivo?

a memória enegrece, mas persiste,
escavo o esquecimento.

a fotografia permanece
– calcinando o fogo.


Ruy Ventura
Chave de ignição

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

PLÁGIO?



Já depois de publicado o presente post e através de um comentário, tomámos conhecimento do blogue : Em Portalegre - PLÁGIO , o qual recomendamos vivamente a leitura para melhor poder acompanhar este caso de plágio.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

RUI MARTINS EDITADO EM ESPANHA

O romance E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, de Rui Martins, acaba de ser editado, em Espanha, pela Bruguera.


Título castelhano: Y Si Me Gustara Morir.
Entretanto, a Dom Quixote anuncia que Deixem Passar O Homem Invisível, o segundo romance do Portalegrense Rui Martins, será lançado em Abril de 2009.

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domingo, 23 de novembro de 2008

ESCREVO-TE CARTAS...

escrevo-te cartas que nunca irás receber.
a morada desaparece
sempre que tentamos encontrar
não uma porta, mas uma casa inteira.
desligo tudo dentro deste quarto.
ouço, incompleto, - com a janela
entreaberta ao fresco da noite –
cada pequeno ruído,
como se fosse um código para nos entendermos.

carregas contigo o peso da noite que não termina.
que maior peso poderias suportar?
o silêncio retalha-nos,
sempre que tentamos suturar as feridas.
como a água do mar?
repuxa-nos a pele,
para que possamos sará-la.

todas as cartas te pertencem.
sobre a mesa,
sem selo nem endereço.
chegarão, com certeza.
não ao destino.
mas à residência da primeira palavra.

reservo esta frase
para esse ponto no horizonte onde fixas os olhos.
escondo(-me).
as árvores do jardim
fazem o mesmo à cidade.
não consigo esquecer
a estrada em frente.

como os plátanos, escondo uma viagem.
por terminar.
o automóvel avança.
o ponto de fuga não prolonga o horizonte.
apenas suspende essa imagem –
por revelar.

nenhuma melodia
é possível perante a noite.
embora tente criá-la em todos os momentos.
procuro reconstituir, na água,
essa pauta desaparecida no início.

encontras
no corpo
o trajecto possível
para decompores a noite.
movimento e repouso
sucedem-se.
a respiração
tenta dissolver a viagem.
a primeira etapa não terminou
ainda.

(...)


Ruy Ventura
Sete Capítulos do Mundo

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

CRISFAL

...

Dizer o que ele sentia,
em que queira, não me atrevo,
nem o chorar que fazia;
mas as palavras que escrevo
são as que ele dezia.
Ali sobre üa ribeira
de mui alta penedia,
donde a água d'alto caía,
dizendo desta maneira
estava a noite e o dia:

«Os tempos mudam ventura
bem o sei, pelo passar;
mas, por minha gram tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a tristeza;
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

Coitado de mim, cuitado
pois meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado!
Quem diz que o chorar descansa
é de ter pouco chorado;
que, quando as lágrimas são
por igual da causa delas,
virá descanso por elas;
mas como descansar hão
pois que são mais as querelas?

Com tudo, olhos de quem
não vive fazendo al,
chorai mais que os de ninguém,
que o que é para maior mal
tenho já para maior bem.
Lágrimas, manso e manso,
prossigam em seu ofício;
que não façam beneficio :
não servindo de descanso,
servirão de sacrefício.

...















Cristóvão Falcão de Sousa

Fragmento da écloga Crisfal

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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

EM BUSCA

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…


José Duro

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

REGRESSO DE ORFEU






(...) Orlando Neves retoma, portanto, a ponta de um longo fio, com dois milénios de extensão. Regresso de Orfeu é, como indica o subtítulo, um clamor, que alia a voz, o canto, à exaltação. Podemos considerar a existência de três momentos na totalidade da obra. No primeiro, perdido o carácter superior e divino do passado, Orfeu regressa à terra sem triunfo nem reconhecimento público, para que celebre no seu canto a vida dos homens. Ele é o homem depois da queda, um ser do tempo e da transitoridade, com um destino mortal, e não poderá alterar o mundo, apenas esquecer o passado e viver a vida efémera dos homens, praticando o jogo da coexistência dos contrários e dando com o seu canto uma dimensão sublime ao desejo dos homens. O segundo momento é constituído por um longo parágrafo em que Orfeu responde indirectamente à exortação anterior e se define a si mesmo como um ser múltiplo em que os contrários coexistem sem que seja possível alcançar a unidade (a última e mais dramática expressão dessa multiplicidade é o desmembramento do cadáver de Orfeu). Almejando a unidade, o absoluto e o eterno, encontra-se numa situação humana, corrupta, mortal. Ao passado feliz opõe-se a ruína do presente, o nada, a morte no futuro. Ele é um suicida que é obrigado a viver e a cantar, mas que não obedece à exortação que lhe foi feita e se refugia na solidão, procurando libertar-se da multiplicidade das máscaras e encontrar a verdade. Podemos considerar como um terceiro momento a mais extensa parte da obra, composta por poemas em que o antigo poeta-deus assume a tarefa de que foi incumbido e se apresenta como o sujeito da enunciação. Mas, longe de exaltar a humana condição, Orfeu, em textos com uma tonalidade clássica, declamatória e exclamativa, aprofunda a visão deceptiva da vida, já brevemente enunciada. Ele permanece na zona da indefinição, da oscilação dos contrários: entre a luz e a sombra, entre a noite e o dia, entre a vida e a morte, entre o divino e o humano. Consciente dos males do mundo, está fora do seu alcance modificá-lo. Aspira ao absoluto e ao eterno e está condenado ao precário, ao transitório. Orfeu carrega uma culpa (ter perdido Eurídice), mas não pode sequer viver da memória da felicidade passada, obrigado a, solitário, ser do mundo.

O canto de Orfeu não é agora suave e apaziguador como no passado, mas um canto triste e mortal sobre o declínio, o vazio, o nada. O espaço em que se reconhece é a noite (o apelo à luz tem a marca da brevidade), o esquecimento (embora irrompa, por vezes, a memória da felicidade, o nome fugaz de Eurídice), a solidão, a proximidade da morte que fechará o círculo: «E de novo surgirei, qual ave do sol,/ para ser cinza, eclipse e fatalidade» (p. 63). O itinerário de Orfeu traçado nestes textos implica, além de uma visão profundamente deceptiva da existência, sem amor, sem Eurídice, perdida a própria identidade («Contemplai o homem que o nome perdeu», p. 24), uma problemática da criação poética. Orfeu volta à terra para cantar o destino dos homens, tarefa que inverte. Mas a acção de cantar, o clamor, existe, provam-no os próprios textos que, no entanto, anunciam o vazio e a morte, são eles próprios suicidas, porque se colocam à beira do vazio das palavras, do silêncio total. Orfeu diz que criou, mas já não cria. A criação está ligada à memória (do amor: «Porque é da recordação que falo e a sinto/ porque com ela crio e reflicto...», p. 61) que lhe está interdita, e, vazia a vida, vazio se torna o canto, apenas um eco («Cada dia a vida, agora tácita, repete,/ na áspera lira, o rumor de dentro, onde, Orfeu / de nunca e autor da morte,/ tão-só me ecoo», p. 62).

É interessante como um conjunto de textos que a si próprio se define como um clamor anuncia a morte das palavras e do poeta: «Também em mim vão adoecendo as palavras / e fará branco o meu retorno a nada» (p. 48). Esta é mais uma das oposições que estruturam esta obra de densa leitura, carregada de referências clássicas, mas colocando problemas de natureza filosófica e literária bem actuais. Ouçamos o silêncio dentro do clamor: «Em breve há que atingir o vazio / da memória e nela persistir. Até que / livre das máscaras que nos corpos fui / venha, última, a surdez das vozes» (p. 38-9).


Ana Teresa Diogo
Colóquio/Letras

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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

SERÁS PÚBLICA PEDRA

Serás pública pedra cacto areia palavra
usando o horizonte o corpo o seio o risco o sexo.


Nem de praia ou brisa ou sol ou ócio ou repto
projectam os passos as fibras as veias as faces.


Há quem com a fera o veneno o punhal a farpa
sepulte a cópula o suor o óleo o lírio a dor.


Viverás na morte peixe sismo cálice pele
balcão de carne sal centeio sangria jejum.


Orlando Neves
Poesia - Obra completa

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sábado, 18 de outubro de 2008

ÁRVORE

Gostava de ter árvores como alguns têm flores.
Árvores, muitas árvores: laranjeiras, pinheiros, uma oliveira ao pé
do mar, se eu tivesse uma casa a sotavento das dunas
como as que se adivinham em certos quadros de Cézanne
se a luz é muito clara e permanece
com velhos nomes gregos que não sei.
Nespereiras, limoeiros, uma que outra ameixoeira
parecendo, vistas de longe, ser
de uma substância estranha e desconhecida.
Não me importava, até, de em tardes de calor
ter dentro do meu quarto um abrunheiro donde pendesse
um decente e fraternal cadáver.

A verdade é que não me assusto facilmente
e tenho confiança no reino vegetal.

Malus sieboldi, Catoneaster dielsiana, vós sois
os mais exactos filhos do mundo.

Gostaria de me rodear, um dia, de videiras
- essas árvores turvas da esperança -
e quando digo rodear sei o que digo, pois
queria que se enrolassem nos meus rins, nas espáduas
me descessem pelas pernas e lançassem
perto do meu sexo folhas novas
e que, ao lusco-fusco, enquanto no céu passam
os pequenos satélites mortais e luminosos que o desespero
do Homem lá coloca, por surpresa se transformassem
em plantas de gesso de frutos impensáveis.

Chego a perturbar-me por vezes se vejo
uma árvore junto a um hospital

Não sei porquê creio que me lembro mais
ou sinto mais
agudamente os níveis dolorosos das origens
do cristal, da carne
os esponjosos tecidos da sombra e da frescura
das cores da morte pronta para o grande tumulto.

Que medo, em certas noites, ver
de noite uma árvore

Sei perfeitamente que uma árvore é um símbolo
obscuro da nossa vida, principalmente da nossa vida
que não houve. Mas mesmo assim
dentro das ruas, dentro das casas
as árvores têm um outro entendimento
um mistério muito delas
- e não completamente inventados -
pois não desprezam a agonia dos homens, o choro dos homens
o seu riso, a sua fome, os sinais todos
que o Homem podia e devia ter.

As árvores começam e acabam sem amor
e sem ódio.

Nicolau Saião
Os objectos inquietantes

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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ESTAMOS NO ALTO ALENTEJO, MAIS PROPRIAMENTE EM PORTALEGRE

O enigma da elevada percentagem de suicídios no sul do País é o pretexto de onde parte Rui Cardoso Martins para o seu soberbo romance “E se eu gostasse muito de morrer” (Publicações Dom Quixote, 2007).


Os putos estão a jogar à bola (os putos são o Trombeiro, o Tonel, talvez o Besta Porca, o Perneta, o Pipas, o Ganso, o Cruzeta, entre outros, o que logo nos lembra a atmosfera do Bairro Alto magistralmente registada no romance de Dinis Machado “ O que diz Molero”), quando descobrem o cadáver do coveiro, o primeiro suicida a entrar em cena.

Estamos no Alto Alentejo, mais propriamente em Portalegre.

O autor, para efeitos deste romance, é o Cruzeta, voltou à sua infância, aos seus tempos de estudante, vai rememorar situações limite, comportamentos tidos por bizarros ou aberrantes, envolvendo sepulturas, venenos rápidos, enforcamentos. O suicídio é mesmo um pretexto para chegar aos códigos da interioridade: está-se longe de tudo, aí a solidão é miséria, é abandono, é indiferença dos do nosso sangue que partiram para sempre. Quem fica, está marcado por múltiplos estigmas, defende-se com o álcool, esconde os fracassos, embrutece, pratica inverosímeis, injustificáveis crimes passionais. Por vezes, o suicida vem até Lisboa e atira-se da ponte 25 de Abril.
A interioridade vive dos problemas comunitários, das mais desvairadas ofertas para se chegar ao desenvolvimento.

O Liceu foi uma oferta dos suecos. É betão e vidro, pelo que no Verão não se aguenta o calor e no Inverno é inferno. Na interioridade as pessoas desesperam perante um tempo que corre sem sentido. A interioridade tem cães gigantescos, filhos repudiados, desafia-se a velocidade, arrisca-se a vida, mata-se porque não há mais a fazer. É o caso do Zé Carlos que esfaqueou a professora Catarina só para que os pais não soubessem que ele mentia acerca de sucessos inexistentes. A interioridade provoca crueldades, as crianças vingam-se nos animais, a urgência dos hospitais enche-se de desastres e os adolescentes desafiam o senhor Bispo a falar da cumplicidade da Igreja com os crimes da guerra colonial.
A interioridade é um estado de espírito, mesmo com bispado, a fronteira de Espanha perto, diversões, agricultores ricos, pobres e remediados, caixas de multibanco, proprietários ricos a ameaçar deserdar filhos blasfemos.

Aquela interioridade que nos fala Rui Cardoso Martins tem tapeçarias valorosíssimas, seminaristas que lêem revistas pornográficas, ali nasceu o poeta José Duro, viveu José Régio, ali há janelas manuelinas, ali se procura vencer do isolamento graças à Internet.
“E se eu gostasse muito de morrer” não é só escrita primorosa, é um duro libelo onde se manifestam os excluídos de toda a interioridade portuguesa, os que não se matam e enganam o aborrecimento de viver, fantasiando maluqueiras, radicalismos e sucessivos tormentos para desafiar o infinito. De permeio, morre-se de amor, vive-se como um bispo e quando se tem sorte foge-se da parvónia, vem-se até à capital.

O romance é uma viagem alucinante aos confins da memória, insiste-se que Portalegre é um pretexto para o autor recuperar a identidade perdida e lembrar-nos que nos confins de Portugal se vive seja o desespero seja a suspirar pela partida. Porque o encadeado de suicídios, corpos mutilados e a exibição de venenos não passam de metáforas: morre-se, gosta-se de morrer porque não se é livre, porque não se pode optar entre ficar e partir. Mas além disso, o autor desenvolve uma tocante elegia, de grande elegância, sobre a infância e adolescência que nos recorda ter existido.

Na literatura, como na vida, quem sai aos seus não degenera. Lobo Antunes classificou este romance como uma grande promessa. Podemos ir mais longe: testemunha como a língua portuguesa se revigora aprofundando o local com o global, o regional com o universal. Esta interioridade é o tormento que travamos connosco, a acusação de que crescemos no litoral esquecendo mais de metade do país. É uma grande promessa e um grande estímulo para a renovação da nossa escrita, aqui confirmada.

Beja Santos

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sábado, 11 de outubro de 2008

ESTE LIVRO DEVE ESTAR INCOMODAR MUITA GENTE DESTA CIDADE?

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