terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Carta aberta ao primeiro-ministro José Sócrates
Sensibilizado com o que tudo indica ser mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara, venho desde já solidarizar-me com a sua pessoa, vítima de uma nova e terrível injustiça.
Quererem agora pô-lo numa telenovela - perdoe-me o neologismo - digna do horário nobre da TVI é mais um sintoma do atraso a que chegámos e da falta de atenção das pessoas para as palavras que tão sabiamente proferiu aquando do último congresso do PS:
Em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal ou uma qualquer estação de televisão. O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo.
Que vergonha.
Embora no momento em que escrevo estas linhas não sejam ainda claros todos os contornos das suas amigáveis conversas, parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas - há aí uma química azarada que não se explica.
Os meses passam, as legislaturas sucedem-se, os primos revezam-se e o senhor engenheiro continua a ser alvo de campanhas negras, cabalas, urdiduras e toda a espécie de maldades que podem ser orquestradas contra um primeiro-ministro.
Nem um mineiro de carvão tem tanto negrume à sua volta.
Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a Face Oculta, essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada.
Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social.
Uma infâmia.
Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do Pais.
É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada.
Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado?
Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também.
Atentamente,
João Miguel Tavares
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FADO PORTUGUÊS
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio
Fado, 1941
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
PORTUGAL, ANO DA GRAÇA DE 2009
no Público de hoje
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GEOLOGIA
Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios de erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.
Vítor Nogueira
Mar Largo
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sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
HÁ BESTAS POR TODO LADO
Durante o tempo que o Sr. Presidente de junta desempenhou um cargo político, mais o tempo que esteve como chefe de gabinete, delegou no Secretário da sua junta para que este desempenhasse com todo o empenho todas as funções atribuídas, decorreram oito anos.
Neste percurso politico, nos primeiros quatro anos, o seu secretário habitou-se a procurar o seu presidente nas tascas a fim de proceder ao despacho e assinatura de alguns documentos necessários para satisfação dos seus fregueses, porque o seu presidente tinha por hábito ir à junta uma vez por mês para que se realizasse a reunião do executivo.
Nos quatro anos seguintes, então como chefe de gabinete, o seu secretário passou a deslocar-se à camada novamente para despachar e assinar.
Neste espaço de tempo decorreram oito anos, há novas eleições e o dito secretário volta a ser convidado para constituir a equipa esta é sufragada pelos fregueses que lhe dão a maioria na junta, qual não é o espanto do secretário quando duas horas antes da junta ser instalada é informado que não tem lugar no executivo, com o cargo desempenhado anteriormente, passaria para a assembleia.
Este senhor presidente tramou aquele que trabalhou e lhe assegurou a vitória.
Parece que o Mata Cáceres quando destituiu o presidente da junta foi por incompetência, nada mais, a mesma por mim presenciada no desempenho de presidente de junta, este aproveitou de uma pessoa honesta, perguntem!
Este senhor é uma pessoa excelente nas suas conversas, mas afinal de contas, não presta, têm dúvidas, perguntem em termos profissionais, ou será que também houve mão da comissão politica do Serrote?
M.A.
Etiquetas: Concelho de Portalegre
ALCOOL
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de côr e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d'inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi alcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
Mário de Sá-Carneiro
Dispersão
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terça-feira, 3 de Novembro de 2009
A OBRA O LEVA
pela tarefa maior
em que quase de si e dela se desprenda
para ampliar somente a solidão.
Mas uma solidão em que tropeça
a linha, às vezes, a descrever-se com
aquela claridade de paciência
que a leva além de onde jamais andou.
Oscila, treme, timbre de tristeza
o espaço à volta. E o sítio aonde for
será cidade surdida de uma mesa
que ele fez longínqua. E ela o coroou.
Fernando Echevarría
Figuras
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sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Ruy Belo
Homem de Palavra[s]
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
LOUVAÇÃO A RACHEL DE QUEIROZ
Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela, pois que, com ser do Ceará,
em de todos os Estados do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil, quero dizer Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos, louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista, louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo
Louvo Rachel, duas vezes, louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze e os outros três;
louvo As três Marias especialmente, mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação, porque por mais que louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Manuel Bandeira
Poesia completa e prosa
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sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
VIVO EM LEMBRANÇAS, MORRO ESQUECIDO
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho na alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara: mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.
Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.
Luís Vaz de Camões
Sonetos
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quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
PORRA!

XVIII Governo Constitucional:
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros
Dr. Luís Filipe Marques Amado
Ministro de Estado e das Finanças
Prof. Doutor Fernando Teixeira dos Santos
Ministro da Presidência
Dr. Manuel Pedro Cunha da Silva Pereira
Ministro da Defesa Nacional
Prof. Doutor Augusto Santos Silva
Ministro da Administração Interna
Dr. Rui Carlos Pereira
Ministro da Justiça
Dr. Alberto de Sousa Martins
Ministro da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento
Dr. José António Fonseca Vieira da Silva
Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas
Prof. Doutor António Manuel Soares Serrano
Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
Prof. Doutor António Augusto da Ascenção Mendonça
Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território
Engª. Dulce dos Prazeres Fidalgo Álvaro Pássaro
Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social
Drª. Maria Helena dos Santos André
Ministra da Saúde
Drª. Ana Maria Teodoro Jorge
Ministra da Educação
Drª. Maria Isabel Girão de Melo Veiga Vilar (Alçada)
Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Prof. Doutor José Mariano Rebelo Pires Gago
Ministra da Cultura
Drª. Maria Gabriela da Silveira Ferreira Canavilhas
Ministro dos Assuntos Parlamentares
Dr. Jorge Lacão Costa
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros
Dr. João Tiago Valente Almeida da Silveira
F.F.
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DESPORTO E PEDAGOGIA
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.
P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!
Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.
Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.
E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.
Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.
Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.
E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.
António Aleixo
Este Livro que Vos Deixo
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terça-feira, 20 de Outubro de 2009
SONÊTO DO GATO MORTO
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade
De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de electricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.
Vinícios de Moraes
O Operário em Construção e outros poema
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sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
LUSOS HERÓIS, CADÁVERES CEDIÇOS
Erguei-vos dentre o pó, sombras honradas,
Surgi, vinde exercer as mãos mirradas
Nestes vis, nestes cães, nestes mestiços.
Vinde salvar destes pardais castiços
As searas de arroz, por vós ganhadas;
Mas ah! Poupai-lhe as filhas delicadas,
Que. Elas culpa não têm, têm mil feitiços.
De pavor ante vós no chão se deite
Tanto fusco rajá, tanto nababo,
E as vossas ordens, trémulo, respeite.
Vão para as várzeas, leve-os o Diabo;
Andem como os avós, sem mais enfeite
Que o langotim, diámetro do rabo.
Bocage
Rimas
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
O QUE ALGUÉM DISSE
"Eleva-te num vôo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!"
No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E n'Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...
Florbela Espanca
Livro de Sóror Saudade
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segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
PORTALEGRE - RESULTADOS DAS AUTÁRQUICAS DE 11 DE OUTUBRO DE 2009

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A CASTIDADE COM QUE ABRIA AS COXAS
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
Carlos Drummond de Andrade
O Amor Natural
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quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
CÂMARA MUNICIPAL DA LÂMPADA ROXA

As autarquias estão para os arguidos como aquelas lâmpadas roxas dos restaurantes estão para as moscas.
Sem pretender ser ofensivo para as moscas, a verdade é que o mecanismo é extremamente parecido.
Só não é igual porque, ao passo que as moscas falecem quando tocam na lâmpada, os arguidos ganham nova vida assim que entram na Câmara Municipal.
Não sei se o leitor tem conhecimento disto, mas o termo autarquia provém de duas palavras gregas que são muito difíceis de pronunciar.
Este é um primeiro ponto curioso.
O segundo ponto é que essas palavras significam "comando de si mesmo", ou "governo de si mesmo".
Na origem, esse significado indica que uma autarquia é o governo que determinada localidade exerce sobre si mesma.
No entanto, alguns autarcas fazem uma interpretação ligeiramente diferente, mas que não pode deixar de se aceitar: na expressão "governo de si mesmo", aquele "si mesmo" é o autarca. É ele que, no sábio jargão dos taxistas, se governa. E assim se regista um ponto de contacto entre a etimologia grega e os modernos motoristas de táxi, ligação que sempre suspeitei que existia.
A candidatura autárquica é o equivalente, nos jogos de vídeo, às vidas infinitas. Não há estrago da vida pessoal do candidato que não possa ser resolvido com uma candidatura autárquica. Penas de prisão, desemprego na família, despesas com obras: não há mal que uma candidatura autárquica não adie ou resolva. Sobretudo devido ao prurido democrático que a maior parte dos eleitores tem em votar num autarca que não seja arguido.
Se vivesse em Portugal, Al Capone nunca teria sido preso. Em princípio, seria presidente de Câmara.
Os cidadãos não hesitariam em votar num homem que, sendo famoso, tinha, além disso, demonstrado saber criar emprego em várias áreas de negócio, com especial destaque para as tão apreciadas pequenas e médias empresas.
Desde as cimenteiras até às agências funerárias, quase não há indústria que não tenha beneficiado das actividades de Al Capone. Não duvido de que daria um excelente candidato autárquico em Portugal, numa primeira fase apoiado por um partido e, quando desse muito nas vistas, como independente.
A única reserva que coloco ao sucesso de Al Capone na política autárquica portuguesa é a consciência do conhecido gangster americano.
Poderia dar-se o caso de Capone ficar inibido com tanta vigarice e desejar voltar para Chicago.
Ricardo Araújo Pereira
VISÃO
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MISSA DE ANIVERSÁRIO
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez
florido?
Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes
Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
terça-feira, 6 de Outubro de 2009
AS BALAS
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado
Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado
Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado
Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado
Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado
Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado
Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado
Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.
Manuel da Fonseca
Poemas para Adriano
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sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
Carlos Drummond de Andrade
Brejo das Almas
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terça-feira, 29 de Setembro de 2009
RACISMO EM ESCOLA DE MONFORTE?
&
COORDENADORA DE APOIO
ÀS ESCOLAS NO NORTE ALENTEJO
METIDOS EM NOVA BRONCA
DEPOIS DO
MAGALHÃES EM CASTELO DE VIDE
AGORA
RACISMO
EM
MONFORTE

Etiquetas: Direcção Regional de Educação do Alentejo, Distrito de Portalegre, Educação, Monforte
EDIÇÃO DE AMANHÃ DO ALTO ALENTEJO

para ampliar
Etiquetas: 30 de Outubro de 2009, Alto Alentejo, Jornal Alto Alentejo, Portalegre
CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel
e se houvesse justiça tinham pena capital
Mendes de Carvalho
Cantigas de Amor & Maldizer
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segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
PERDER
foi movimento em cerne opaco e frígido...
E quando sei que este momento eterno
em mim percorre sulcos, veias, sonhos,
outro momento abraça-me o porvir —
e desconheço a margem onde navegar,
onde aportar o peso do caminho.
Perder é começar. Por isso a ténue sombra
desenha no sigilo os abismais instantes
onde existiu, uma vez, qualquer destino exacto.
António Salvado
Na Margem das Horas
Etiquetas: António Salvado, Poesia
domingo, 27 de Setembro de 2009
LEGISLATIVAS 2009 PORTALEGRE DISTRITO

1 Deputado para o PS = 24944 Votos
1 Deputado para o PSD = 15530 Votos
Etiquetas: Distrito de Portalegre, Eleições Legislativas 09, Partido Social Democrata, Partido Socialista
sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
RESTA A ESPERANÇA...

Segundo a sondagem pode agora escolher qualquer dos partidos com assento parlamentar para fazer uma coligação.
Pode até governar sozinho e ir vendendo um ou outro favor, uma ou outra proposta a um qualquer partido de acordo com a sua vontade.
Pode ser mau, hipócrita, mentiroso, aldrabão, homem de mão dos Bilderberg, que é também mais esperto que todos os outros.
Burros e bestas de carga somos nós que vamos sofrer mais alguns anos das suas politicas e aldrabices.
Tanto desejaram correr cada um na sua bicicleta que agora o vêm cortar a meta bem lá à frente de todos. Isto, se não aparecerem por aí mais masoquistas a dar-lhe uma nova maioria absoluta. Uma perspectiva assustadora e que justificaria o pensar em fugir deste país.
Resta a esperança que as sondagens se tenham enganado de novo.
K.
Etiquetas: José Sócrates, Partido Socialista
CONQUISTA
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
Luís Amado
Dádiva
Etiquetas: Luís Amado, Poesia
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
CAMÕES
A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Amor doía, emaranhava.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.
António Osório
O Lugar do Amor
Etiquetas: António Osório, Poesia
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
A MEMÓRIA É A GAVETA COM PALAVRAS ETERNIZADAS
seduz o esmagado sol das manhãs
e purifica as ideias.
Gosto dele
como do veludo e da cor dos pêssegos.
Ele fecha a porta
e desce as escadas da rua
com a lentidão sorridente da volúpia.
Fala-me num tom severo que me inutiliza…
Uma noite contou-me os poemas da mãe
e prendeu-me aí.
(À beira-mar em recanto de festa, gostei de te escutar)
Luísa Ribeiro
Fogo Branco
Etiquetas: Luísa Ribeiro, Poesia
segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
ACERTEM-LHE COM FORÇA

E.I.
Etiquetas: Eleições Legislativas 09, Partido Social Democrata, Partido Socialista
Ainda que me digam
que vivemos em democracia eu digo
que não sei.
Joaquim Manuel Magalhães
Etiquetas: Joaquim Manuel Magalhães, Poesia
domingo, 20 de Setembro de 2009
TRIUNFO DA CORJA...

Isto não teria relevância se há três dias a GNR não tivesse sido obrigada pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (cujo presidente é Paulo Marques, nomeado pelo ministro socialista Rui Pereira) a devolver ao PS três viaturas que tinham sido retidas por terem “películas publicitárias ilegais coladas aos vidros”, além de ter de perdoar as multas (no valor de 1100 euros) então aplicadas.
Isto também não seria importante se o insólito argumento usado pela ANSR, entidade dependente do Governo, não tivesse sido o de que "a defesa do exercício de liberdades" é mais importante que o Código da Estrada, que, como se sabe, é uma lei aplicável a todos os que circulam nas estradas portuguesas.
Sem comentários.
Agora é esperar para ver se a desfaçatez de quem se julga (e na prática está) acima da lei se volta a repetir …
Alguém explica a esta malta que domina o Estado que o Estado deve ser … um Estado de Direito?
Espero que a explicação seja dada daqui a uma semana.
R.C.T.
Etiquetas: GNR, Lei, Onde é Que Eu já Vi Igual, Partido Socialista, Vigaristas
O BENEFICIADO FAUSTINO DAS NEVES
que vê de viés quem o visita alguma vez?
Pergunto e não quero que ninguém me responda
perguntar por perguntar pode ser a mais alta forma de saber
A pergunta ondula no ar ou na alma como uma nuvem
será talvez um til num texto uma ruga na testa
um gesto de quem contesta uma leve crispação da crista
Não importa talvez o que se pergunta mas como se pergunta
a ânsia na voz o brilho nos olhos um movimento de pés
Que me importa a mim faustino das neves mero pretexto para isolar
da boca cariada do tempo um simples olhar?
Que importa um olhar a análise dos tecidos orgânicos
dos olhos das células vivas de súbito impressionadas
e das fotografias logo reveladas na câmara escura do cérebro?
Um olhar interroga um olhar duvida talvez um olhar é coisa de tempo
é a mais funda fala de quem num momento se sente bem
se despede de si mesmo de todos se isola cortante como uma proa na vida
Olhar é talvez como que pensar como sentir como dissimular que se sente
e às vezes dar vida a casas costumes coisas ao vento
ao vento que varre todos os gestos que desenhamos nos dias
é lutar corpo a corpo com corpos provisoriamente opostos ao nada
é uma sala de estar onde os amigos podem entrar de chapéu na cabeça
tuna sala onde a luz levanta a manta de velhas coisas inúteis envoltas em volta
Nos olhos começa às vezes o mar os olhos animam nas coisas o vento
nascem nos olhos as nuvens que arrastam consigo a tristeza para o lado sul
Faustino das neves não é homem de anjos
repele discretamente as mãos coercivas do transcendente
joga tudo na vida volta-se de uma vez para sempre para estes dias
emerge da sombra para os mais leves sintomas do sol
sai das mãos de josefa pra uma tela sombria do século dezassete
abandona na ponta dos pés a igreja da santa casa da misericórdia
pisa na noite as pedras da vila de óbidos
Faustino das neves muda de roupa põe o breviário de lado
actualiza certos aspectos antiquados do seu português
submete-se às leis da fonética embora saiba que há quem negue que sejam leis
responde aos inquéritos linguísticos por correspondência do doutor paiva boleo
enriquece o léxico com nomes de coisas do novo mundo com termos técnicos
com construções colhidas nas páginas de aquilino ribeiro ou guimarães rosa
maneja também para isso os modernos meios audio-visuais
anda a par das novas conquistas do estruturalismo evita os vários suplementos literários
embora tenha ouvido falar de fernando luso soares e alberto ferreira
acompanha mesmo as novas correntes do pensamento
Faustino das neves caminha por óbidos mas é um homem do nosso tempo
sensível aos slogans ao chamamento luminoso das montras
recorre ao crédito contribui irresistivelmente para a inflação
que um governo em guerra prometeu combater não sabe bem como
não tem precisão de emigrar mas intervém nos problemas do nosso tempo
assina o seu nome em listas apresenta-se como intelectual responsável
é até dos homens mais à esquerda do nosso país
pensa talvez promover ortodoxamente em portugal
exactamente a revolução russa de mil novecentos e dezassete
Faustino das neves olha através dos séculos
coloca o pé pisa as pedras as nuvens com elegância
conspira diz mal calcula caminha na vida
O beneficiado não crê na promessa do dia nem na verde alegria
de banhar o rosto num instante na própria fonte
de ver sequer de passagem mais que a sua simples imagem
esse núcleo de luz ardente que agora tenho na minha frente
essa fuga feliz a um mundo onde dia a dia me afundo
talvez a única sombra que a mim me deslumbra
sonhada morada nunca conseguida
sensível e audível e palpável mas inconcebível
desmedido portal onde poderá começar o ignoto mundo do mal
onde uma coisa logo que nomeada é coisa realizada
Josefa foi a submissa foi decerto a pintora mas foi também
doméstica e simples e amiga e mãe
Josefa de óbidos não pinta há muito anda assustada
o seu cliente beneficiado fugiu-lhe ingratamente das mãos
não a respeita não reconhece que só graças a ela chegou até hoje
e a pintora tem o seu nome uma reputação nacional e até
internacional devida talvez a josé augusto frança
começa a recear as consequências de ter criado tal criatura
Josefa de óbidos ficou no seu tempo pintou metafisicamente um olhar
meteu-o na cara de um homem enquadrou esse homem numa classe
ficou descansada tinha a imortalidade assegurada
mas agora até pensa deixar talvez de pintar
Josefa de óbidos noutro país talvez tivesse pintado
essas bolas de sabão que manet continua a soprar até nós de um longínquo verão
como imagem do tempo da vida da terra em breve desaparecida
ou aquele menino togado mas truncado
que jaz no prado irremediavelmente ameaçado
pelo perene fado essa mensagem do passado
transmitida ao presente eternamente
ou aquela dama romana donde intermitentemente mana
o mar de recordar esse insistente soluçar
de quem tem no olhar uma forma garantida de passar
a vida indiferentemente recordada esquecida
mais tarde também josefa se fosse um homem
ou enfim defendesse a liberdade sexual da mulher
talvez decerto com a sua dose de sorte se chamasse goya
assistisse a touradas pusesse saber e sabor em pintar aquele picador
que pica um touro castigado nalgum domingo do século passado
ou se não mais na sua linha um cardeal de goya frio fixo como uma jóia
que um homem depois de ver de boamente consente em morrer
ou as perfeitas santas justa e rufina onde se afina e refina
a mão que por vezes guia a loucura através do pretexto da pintura
Mão que não sentiu a pouco e pouco gastar os dedos do autor a pintar
que pintou noite e dia sem sentir que se desfazia
para para sempre ficar num grupo álacre que a dançar
envolve na roda a distância do requinte e da elegância
de quem num instante ímpar se desenha no ar
para tudo e todos imolar ou pelo menos diminuir
Josefa não pode parar talvez quem saiba consiga pintar
a maja desnuda ou a maja vestida
os velhos vorazes que no comer põem a mais viva forma de morrer
essa romaria de santo isidro onde há gente que deve os olhos de vidro
ao vinho e à mais triste alegria que num madrid há muito passado se construía
ou o cão já meio afogado só salvo depois de pintado
com a raiva de quem assassinasse talvez a própria mãe
ou a si mesmo se houvesse matado ao deixar-se auto-retratado
A pintora de óbidos desconhece a finura o donaire o sorriso dessa figura
helena fourment modelo de rubens uma criatura da terra que até hoje perdura
não viu uma velha de duas igrejas fiar e de fuso na mão para sempre ficar
com o tempo todo na face mãos fechadas sobre a velhice
ou a usurária de ribera mulher que é hoje na tela mais que no tempo era
mulher mumificada na mão levemente destacada
território de rugas talvez onde se intensifica a luz
rosto rijo e rigoroso onde o boletim meteorológico anuncia sempre tempo invernoso
olhos que no campo circunscrito da parecença
distinguem a distância que existe entre quem começa
e quem a vida já vela com um véu de névoa
Josefa pinta como quem pensa ou considera e só assim recupera
esse passado mais que no nome na realidade inexoravelmente passado
por ser a mesma mulher e serem freiras e serem viúvas ou outras quaisquer
ou esse santo por heredia pintado e depois disso irremediavelmente degolado
e não menos que o anterior cão deixado nas águas do tempo afogado
Josefa na arte comprometida passaria o pincel pela vida
pelo baile campestre alegre e triste
onde é visível o vento que apenas dura nesse momento
em que se dança intensamente e alguém vai e vence
com a decisão inabalável das marés do mar o bailarino mais exímio a dançar
casamento campestre conjunto de gestos urbanos num meio agreste
neptuno do olhar velado neste mesmo instante emerso do mar do passado
objecto de gesto jamais talvez ultrapassado apesar do desígnio sempre esboçado
por quem um dia nalguma parte deu o que tinha e não tinha pela arte
Josefa de óbidos assustou-se porém pois podiam dizer a alguém
que pintar implica ao fim e ao cabo ter um pacto com o diabo
pois o diabo vivia nos dias de então vestia a toga da inquisição
e a pintora pensou deixar a pintura com medo da alma e da censura
Não existe decerto censura mas o gesto foi sábio porquanto existe o exame prévio
e se formos a pensar um bocado é realmente perigoso pintar um beneficiado
pois bem vistas as coisas o homem às vezes é vário muda de roupa deixa o breviário
sopram os ventos da história e modificam a forma de toda a matéria
e talvez tenha sido assim que faustino se pôs a pensar josefa que foste tu fazer
Ruy Belo
Toda a Terra
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
[JORGE DE SENA] DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena
Etiquetas: Jorge de Sena, Poesia
domingo, 13 de Setembro de 2009
DEDICADO À GRANDE BESTA DO ALCAIDE DE ELVAS..

MFL: No me gustan los españoles metidos en la política portuguesa.
JS: A ti no te gustan, pero a mi me encantan!
Vasco C.
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RECUSAR OS VELHOS DO RESTELO

Num caderno da Seara Nova, acerca do medo, escreveu: "inimigo da alma: porque é o medo que tolhe até os impulsos mais generosos, faz desistir até das aspirações mais justas, afoga até o grito mais espontâneo, corrompe e assombra até a mais clara visão da vida." O medo de quê? De nos arriscarmos e reclamarmos a justiça social? 60 anos passados, o virar de costas à realidade, que é, sobretudo, virarmos as costas a nós próprios e desrespeitar-nos, continua na raiz da resignação portuguesa. Evitamos o risco: o incómodo de nos manifestarmos, e tendemos a ir atrás dos outros indiferentes.
2.Indiferentes a quê? Ao futuro. Encolhemos os ombros (encolhemos a alma) e pensamos: que venha ele, futuro, como vier! E das duas uma: ou nos chegamos aos que parecem garantir a paz podre ou abstemo-nos de nos manifestar. Em eleições, isso descamba no seguinte: ou preferimos aqueles que se mostram dispostos a não melhorar nada (e, afinal, continuam a tirar partido do que está mal ou péssimo) e elegemos os ultraconservadores em vez dos que prometem caminhos renovados, mais justos -ou, razoando para esconder o medo, pura e simplesmente, nos abstemos de votar. Lá está o medo, "inimigo da alma". Lá está o homem a rebaixar-se. Lá está o homem a não querer saber que é responsável pela sociedade em que vive -e a deixar a própria vida por mãos alheias.
Manuel Poppe
J.N.
Etiquetas: Portugal
FADO PORTUGUÊS
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio
Poemas de Deus e do Diabo
Etiquetas: José Régio, Poesia
sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
SONDAGEM SIC...

Com menos 1,1% surge o PSD, escolhido por 32,5% dos inquiridos. A previsão de mandatos é exactamente igual à do PS: entre 84 e 90 deputados, o que no caso do PSD significa sempre um crescimento face ao actual grupo parlamentar que é composto por 75 deputados.
A sondagem da SIC, Renascença e Expresso confirma a subida do Bloco de Esquerda que surge como terceira força politica no Parlamento: 9,6% é a previsão. que corresponde à eleição de 18 a 20 deputados, mais do dobro dos actuais oito mandatos.
A CDU é opção para 9,4% dos inquiridos, com eleição de 16 a 19 deputados. Em 2005, a coligação entre comunistas e verdes elegeu 14 deputados.
Quem também deverá ver aumentado o grupo parlamentar é o CDS, que sobe nas intenções de voto se compararmos com o resultados de 2005: 8% é a previsão. E em vez dos actuais 12 mandatos, poderá vir a ter entre 14 e 16.
Por outro lado, 6,9% dos inquiridos opta por outros partidos, pelo voto em branco ou nulo, o que poderá significar a entrada de uma nova força política no hemiciclo.
Sublinhe-se que estes são os resultados projectados de uma sondagem que registou 19% de indecisos.
Cenários de coligação
O estudo, elaborado com voto recolhido em urna, deixa em aberto vários cenários de governação para o dia 27 de Setembro, mas é clara numa conclusão: os únicos dois partidos cujos votos somados permitem alcançar a maioria absoluta - mais de metade dos 230 assentos - são PS e PSD, o chamado Bloco Central.
Qualquer outro cenário de soma de resultados a dois não supera a maioria simples:
- Bloco Central (PS+PSD): entre 168 a 180 deputados
- PS+BE+CDU: entre 118 a 129
- AD (PSD+CDS/PP): entre 98 a 106 deputados
- PS+BE: entre 102 a 110
- PS+CDU: entre 100 a 109
Os dados da Eurosondagem permitem ainda antever uma distribuição de resultados pelo mapa do país. São ainda muitos, os distritos marcados ainda pela incerteza sobre qual será o partido mais votado: Braga, Castelo Branco, Évora, Faro, Guarda, Portalegre, Santarém e a Região Autónoma dos Açores.
SIC
Etiquetas: Eleições Legislativas 09
INDEPENDÊNCIA
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.
Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.
Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.
Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!
Jorge de Sena
Coroa da Terra
Etiquetas: Jorge de Sena, Poesia
quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
VOTO ÚTIL CONTRA O PS
Esta situação ainda é mais grave nos distritos com pouca população.
Por isso, os eleitores destes distritos têm de pensar muito bem onde vão colocar a sua cruz.
Donde, devemos concentrar os nossos votos para derrotarmos o PS de Sócrates.
Nos distritos mais populosos os cinco maiores partidos portugueses têm grandes hipóteses de eleger deputados, casos de Lisboa, Porto, Braga e Setúbal.
Noutros distritos, um pouco menos populosos, alguns partidos não elegerão possivelmente deputados, como a CDU em Aveiro, o CDS em Coimbra, a CDU e o Bloco em Leiria, o CDS em Santarém e o Bloco e a CDU em Viseu.
Nos distritos menos populosos a maioria dos partidos não vai eleger deputados e por isso devemos concentrar energias
Eleições Europeias de 2009 - Distrito de Portalegre
(Simulação Legislativas)
| Divisor/Método de Hont | Bloco Esq. | CDU | PS | PSD | CDS |
| 1/Resultados | 3848 | 7174 | 12435 (1.º deputado) | 9596 (2.º deputado) | 2483 |
| 2 | 1924 | 3587 | 6218 | 4798 | 1242 |
Eleições Legislativas de 2005 - Distrito de Portalegre
| Divisor/Método de Hont | Bloco Esq. | CDU | PS | PSD | CDS |
| 1/Resultados | 3216 | 8546 | 38739 (1.º deputado) | 14290 | 2988 |
| 2 | 1608 | 4273 | 19370 (2.º deputado) | 7145 | 1494 |
O Distrito de Portalegre apenas elege dois deputados. Tradicionalmente um deputado é do PS. O segundo deputado é disputado entre o PS e o PSD. Se os portugueses querem penalizar o PS de Sócrates têm de votar PSD pensando que este partido poderá alcançar o segundo deputado. Nas eleições europeias o PSD teve um resultado que lhe daria o segundo deputado, mas nas legislativas de 2005 não conseguiu, sendo o segundo deputado atribuído ao PS.
Portanto, portugueses que votam habitualmente no Bloco, na CDU e no CDS (votos perdidos em Portalegre), têm de fazer um sacrifício votando no PSD para derrotarmos o PS de Sócrates.
J.P.
Etiquetas: Eleições Legislativas 09
QUALQUER TEMPO
A hora mesma da morte
é hora de nascer.
Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.
Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
Carlos Drummond de Andrade
A Falta que Ama
Etiquetas: Carlos Drummond de Andrade, Poesia
quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
REGRESSO ETERNO
da minha antiguidade:
e eu mesmo repetido
outra vez marinheiro.
Outra vez o grito
da esperança renascida,
e eu mesmo repetido
outra vez afogado.
Outra vez o grito
dos teus olhos esperando o meu regresso:
e eu mesmo repetido
outra vez o mar dando à costa o meu corpo roído dos peixes.
Eduíno de Jesus
O Rei Lua
Etiquetas: Esuíno de Jesus, Poesia
terça-feira, 8 de Setembro de 2009
PORTUGAL E A EDUCAÇÃO...

Os jovens que não completaram o ensino secundário… também.
O trabalho qualificado é pior pago do que na média da OCDE.
O não qualificado... também.
Mas nada de pessimismos.
Os dados são de 2007, antes da chuva de diplomas do modelo de qualificação pela via administrativa adoptado pelo actual Governo.
Hoje, dois anos depois, Portugal é a terra das oportunidades.
As novas.
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CALÇADA DE CARRICHE
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão
Teatro do Mundo
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segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Etiquetas: Freeport, José Sócrates, Partido Socialista, Vigaristas

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NONA SINFONIA
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
Ary dos Santos
O Sangue das Palavras
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