Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

PRINCE CHARMANT

No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas

Das noites da minh'alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
- Nunca se encontra Aquele que se espera!...

Florbela Espanca
Livro de Sóror Saudade

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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

VERDES SÃO OS CAMPOS

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões
Lírica

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012


Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia
Duplo Império

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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

INCLUÍDOS E EXCLUÍDOS

Não é num fado, num poema exaltado ou num lenço farpado que lemos a palavra "cicatriz". É num relatório de economistas sobre desemprego. Desemprego jovem: 35% em Portugal, 45% na Grécia, quase 50% em Espanha. Daqui a nada estaremos a celebrar um ano da grande manifestação de 12 de Março. Ela não serviu para nada.

Há uma geração inteira que está entalada entre o que foi e o que será. Sai da universidade e não tem trabalho, quanto mais emprego. São galopantes, as taxas reveladas.
Nas manifestações de Março, havia 115 mil desempregados com menos de 25 anos, em Dezembro eram 156 mil. E estes números só incluem os que estão à procura de trabalho. Não incluem, por exemplo, os 20 mil jovens que só no final de 2011 desistiram de procurar emprego. Foram estudar. Ou vegetar. A lassidão também é uma extroversão social.

É aqui que Portugal enfrenta o risco de desagregação social. Aqui mas não só. A cesura existe mas não é entre idades, é entre incluídos e excluídos. E os que são despejados do trabalho aos 40 ou 50 enfrentam as mesmas restrições, ou piores - e com menos possibilidades de romantismo.

Os jovens amontoam-se à entrada de um mercado que não cria emprego desde 2008, num microclima deprimente e isolante. Há dias, o "Público" revelava como os jovens se estão a apartar de preocupações com os mais velhos. Afundam-se nos seus próprios desgostos. Se isto não é desagregação social, é o seu princípio.

Há sustos para além do degredo jovem. Quase um terço dos desempregados tem mais de 45 anos: têm dívidas, têm filhos e têm portas fechadas ao seu regresso. Pior: dois terços dos desempregados têm no máximo nove anos de escolaridade. Vítor Bento (quando não é Silva Lopes, é quase sempre Vítor Bento...) disse-o há um ano:
os velhos empregadores dos pouco qualificados não voltarão, e os novos empregadores, quando os houver, não os quererão. Dizemos-lhes o quê? Que saiam da zona de conforto, que não sejam piegas, que lamentamos mas o progresso também se alimenta dos seus filhos?

O mercado de trabalho tornou-se num reduto ameaçado e dual, em que os interesses adquiridos se condoem dos precários, mas não se movem por eles. A recente reforma do código do trabalho fez, aliás, quase nada por eles. Os recibos verdes continuam verdes, os contratos a termo continuam a termo, e todos continuam muito tributados. Não tinha de ser assim: há novos modelos de contratos (em países da Europa do Norte) muito flexíveis e com mais garantias - e dignidade.

As manifestações de 12 de Março não eram de jovens contra velhos, eram de excluídos e revoltados contra um sistema em que não se revêem nem os revê, cuida, sequer compreende. Foram manifestações magníficas, de alegria, convocatória e paz. Foram inconsequentes. Porque exigiram uma nova política mas abdicaram de a fazer.

A solução é sempre política. E os rios que lá desaguam são os partidos. Ou os jovens esperam por um D. Sebastião de vinte anos, ou invadem os partidos e mudam-nos por dentro, a partir da base, e pela quantidade avassaladora. Os partidos só representam os seus próprios interesses,
são sistemas piramidais com líderes reféns de quem os elege, e que saciam com empregos, cunhas, contratos e festas.

Emigrar é uma solução, mas isso não é política, é desistência. Quem não quer ser insultado com pieguices e zonas de conforto pelos políticos tem dois caminhos. Um é sair daqui. O outro é entrar por ali, e apear o sistema partidário que se protege até ao fim dos seus dias. Ou dos nossos.



PS: Na ditadura, Portugal teve um General Sem Medo candidato a Presidente. Foi morto. Agora, em democracia, tem um Presidente com medo - de uma escola Secundária.



Pedro Santos Guerreiro

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POEMINHA SOBRE O TRABALHO

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes
Pif-Paf

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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

ONDE CHEGAMOS COM GENTE BURRA TODOS OS DIAS DO ANO...


Rezai para que chova e já agora, para que nos livre destas nulidades.

Oração para pedir a chuva

Deus, nosso Pai, Senhor do Céu e da Terra (Mt 11, 21)
Tu és para nós existência, energia e vida (Act 17, 2).
Criaste o homem à Tua imagem (Gn 1, 27-28)
a fim de que com o seu trabalho ele faça frutificar
as riquezas da terra
colaborando assim na Tua criação.

Temos consciência da nossa miséria e fraqueza:
nada podemos fazer sem Ti (Jo 15, 5)..

Tu, Pai bondoso, que sobre todos fazes brilhar o sol (Mt 5, 45)
e fazes cair a chuva,
tem compaixão de todos os que sofrem duramente
pela seca que nos ameaça nestes dias.

Escuta com bondade as orações que Te são dirigidas
com confiança pela Tua Igreja (Lc 4, 25),
como satisfizeste súplicas do profeta Elias (1Rs 17, 1)
que intercedia em favor do Teu povo (Tgo 5, 17-18).

Faz cair do céu sobre a terra árida
a chuva desejada
a fim de que renasçam os frutos (Tg 5, 18)
e sejam salvos homens e animais (Sl 35, 7).

Que a chuva seja para nós o sinal
da Tua graça e da Tua bênção:
assim, reconfortados pela Tua misericórdia (cf. Is 55, 10-11),
dar-te-emos graças por todos os dons da terra e do céu,
com os quais o Teu Espírito satisfaz a nossa sede (Jo 7, 37-38).

Por Jesus Cristo, Teu Filho,
que nos revelou o Teu amor,
fonte de água viva, que brota para a vida eterna (Jo 4, 14).
Ámen.

Papa Paulo VI

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CHUVA


Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.

Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.

Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...

Francisco Bugalho
Paisagem

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

MANSOS!!!


100.000 gregos pegam fogo a Atenas.





300.000 excursionistas neste chiqueiro,

não partiram um prato.

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BRIGA

Brigar é simples.
Chame-se covarde ao contendor.
Ele olhe nos olhos e:
— Repete.
Repita-se: — Covarde.
Então ele recite, resoluto:
— Puta que pariu.
— A sua, fio da puta.

Cessem as palavras. Bofetão.
Articulem-se os dois no braço a braço.
Soco de lá soco de cá
pontapé calço rasteira
unha, dente, sérios, aplicados
na honra de lutar:
um corpo só de dois que se embolaram.

Dure o tempo que durar
a resistência de um.
Não desdoura apanhar, mas que se cumpra
a lei da briga, simples.

Carlos Drummond de Andrade,
Boitempo

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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

CANTIGA DOS AIS



Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda

Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou

Os ais que vêm da alma
ais d´amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe

Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável

Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do António

Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão

Ai que vontade de rir
E os ais do D. Dinis
ai Deus e u é

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém
Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país

Mendes de Carvalho
Cantigas de Amor & Maldizer

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

O DIÁRIO

o pai diz que aqui o tempo pára
e aqui (eu sei) o tempo pára mesmo.
não corre já pela azinhaga
a célere aragem carregada de tempo

encontrei o diário dela na quarta-feira
as pálidas notas de adolescência, amiúde enfadonhas.
recordo como ela dizia, não quero que o leias,
o pai diria: não, não lhe leias o pálido diário
não despertes com essa leitura aqui a corrida do tempo

há-de repousar esse caderno
entre outros livros de memórias:
proust e o seu tédio de morte
e também ashberry, codificado pelo dia absurdo

não deixarei pai por um segundo
que o tempo vá veloz pela azinhaga

João Miguel Henriques
Isso Passa

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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

ÚLTIMO TESÃO

rabiscos vieira

Alombo contigo há uma porção de anos

e vou-te dizer és um chato
não tens ponta de paciência
para a vida nem para ti próprio

já te ouvi discursos a mandar vir
já te carreguei às costas
bêbedo como um Baco de aldeia
mijando as ceroulas
és um adolescente retardado
faltou-te sempre a quadra do bom senso

vez por outra um livrinho
de versos vez por outra nada
qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros

o país mete dó

guarda o último tesão
para mandares
meia dúzia de canalhas à tábua

Fernando Assis Pacheco
Respiração Assistida

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

Fernando Assis Pacheco
A Musa Irregular



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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

GATO


Chama-se Luís o gato do terceiro
e é companheiro de um mestre filósofo.
Em madrugadas altas há por vezes sobressalto.
quando o bichano acorda mal disposto.
O professor, sábio também
em jogos de paciência, acalma
o animal e já o mima. Trata-se,
vendo bem, de outra ciência,
tão difícil de conseguir como
um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho
da Silva, o do terceiro, e tem um gato
com quem, à vontade, discreteia.
Luís, discípulo, ronrona baixinho.
Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

Eduardo Guerra Caneiro
Contra a Corrente

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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

VAMOS TODOS AJUDAR ...





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DONA ABASTANÇA

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

Manuel da Fonseca
Poemas para Adriano



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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

É UM ARTISTA PORTUGUÊS

O HORROR DE SER POBRE

Risco c'um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruina o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.


Bertold Brecht
Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

LIVRO ANTIGO


violetas secas entre páginas de um livro
onde em tempos anunciaram o amargor da noite
e a humidade tremenda das insónias

o mar
o mar ao longe

debruça-se então para o interior do livro
lê qualquer coisa sobre o coração dos líquenes
ou deambula de sílaba em sílaba onde
os dedos se mancham de tinta e no cérebro
ergue-se uma planta de cinza noite adiante

fechou o livro ao amanhecer
era como se tivesse envelhecido séculos
com as violetas
fecha a persiana e adormece

Al Berto
O Medo.

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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

A F... OS PORTUGUESES DESDE 1978

SYMPATIA

Olhas-me tu
Constantemente:
D'ahi concluo
Que essa alma sente!...
Que ama, não zomba,
Como é vulgar;
Que é uma pomba
Que busca o par!...

Pois ouve; eu gemo
De te não vêr!
E em vendo, tremo
Mas de prazer!...
Foge-me a vista...
Falta-me o ar...
Vê quanto dista
D'aqui a amar!

João de Deus
Ramo de Flores

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

ESTE É O PRÓLOGO



Deixaria neste livro
toda minha alma.
Este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que compaixão dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!

Que tristeza tão funda
é mirar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!

Ver passar os espectros
de vidas que se apagam,
ver o homem despido
em Pégaso sem asas.

Ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se miram e se abraçam.

Um livro de poemas
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
— entranháveis distâncias. —

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchadas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza-mãe
que explica sua grandeza
por meio das palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível,
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe ele que as veredas
são todas impossíveis
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros seus de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristonhas
e eternas caravanas,

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia, amargura,
mel celeste que mana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia, o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
chamas e corações.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
nossa barca sem rumo.

Livros doces de versos
são os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
as estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas
e nunca aliviadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!

Deixaria no livro
neste toda a minha alma...

Federico García Lorca
Poemas Esparsos

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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

UM PÁSSARO A MORRER

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se já não me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Fernanda de Castro
E Eu, Saudosa, Saudosa

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

OS MEUS LIVROS

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges
A Rosa Profunda

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