REVOLTA DOS PORTEIROS
Estas eleições autárquicas trouxeram uma profunda renovação dos
protagonistas, mais de metade dos presidentes de câmara é estreante no
cargo.
Mas, provavelmente, as más práticas, os velhos defeitos, os negócios escuros de sempre, continuarão o seu caminho.
O
poder local pode maquilhar-se, mas dificilmente se reformará.
Continuará refém dum pequeno grupo de corruptos.
A dimensão deste grupo
estima-se em pouco mais de dez por cento, constituem uma minoria, é
certo, mas uma minoria que domina mais de noventa por cento dos
negócios.
São os presidentes de câmara e vereadores do urbanismo que
permitem valorizações de terrenos da ordem de mais de 700 por cento aos
financiadores dos partidos; são os vereadores da via pública que
contratam obras por preços obscenos e que permitem ainda derrapagens nos
valores contratados; são os detentores dos pelouros de ambiente que
concebem modelos de parcerias público-privadas na distribuição de água,
com elevada rentabilidade para os concessionários e cujo risco corre por
conta do erário público.
Estes políticos alienam o poder popular a
troco de inúmeras vantagens pessoais. Prostituem a sua função.
A
maioria dos autarcas é, apesar de tudo, gente materialmente séria.
Exerce as suas funções com dedicação e competência, não usufrui de
benefícios materiais ilícitos.
Mas ao silenciarem-se perante os
corruptos, são igualmente responsáveis.
Estão anestesiados pelas
benesses que os lugares lhes concedem.
O exercício
do cargo de vereador confere prestígio social, permite a obtenção de
empregos para protegidos, acelera autorizações para realização de obras
em casa da sogra, facilita a atribuição de um qualquer fundo europeu
para uma empresa de familiares.
A proximidade do poder traz muitas
vantagens de que estes atores não querem abdicar.
Deslumbrados, e apesar
de conhecedores dos mecanismos de corrupção com que convivem, tentam
demarcar-se.
Mas são igualmente cúmplices.
Como reza o ditado, "é tão
ladrão o que vai à horta como o que fica à porta". E a maioria destes
políticos são os porteiros.
Só a sua revolta e a denúncia face às
situações que tão bem conhecem poderia regenerar o poder autárquico.
Paulo Morais
Etiquetas: Câmaras Municipais, Portugal
