quarta-feira, 2 de outubro de 2013

REVOLTA DOS PORTEIROS

Estas eleições autárquicas trouxeram uma profunda renovação dos protagonistas, mais de metade dos presidentes de câmara é estreante no cargo.
 
Mas, provavelmente, as más práticas, os velhos defeitos, os negócios escuros de sempre, continuarão o seu caminho.

O poder local pode maquilhar-se, mas dificilmente se reformará. 
Continuará refém dum pequeno grupo de corruptos. 


A dimensão deste grupo estima-se em pouco mais de dez por cento, constituem uma minoria, é certo, mas uma minoria que domina mais de noventa por cento dos negócios. 
São os presidentes de câmara e vereadores do urbanismo que permitem valorizações de terrenos da ordem de mais de 700 por cento aos financiadores dos partidos; são os vereadores da via pública que contratam obras por preços obscenos e que permitem ainda derrapagens nos valores contratados; são os detentores dos pelouros de ambiente que concebem modelos de parcerias público-privadas na distribuição de água, com elevada rentabilidade para os concessionários e cujo risco corre por conta do erário público. 
Estes políticos alienam o poder popular a troco de inúmeras vantagens pessoais. Prostituem a sua função.

A maioria dos autarcas é, apesar de tudo, gente materialmente séria. 
Exerce as suas funções com dedicação e competência, não usufrui de benefícios materiais ilícitos. 
Mas ao silenciarem-se perante os corruptos, são igualmente responsáveis. 
Estão anestesiados pelas benesses que os lugares lhes concedem.

O exercício do cargo de vereador confere prestígio social, permite a obtenção de empregos para protegidos, acelera autorizações para realização de obras em casa da sogra, facilita a atribuição de um qualquer fundo europeu para uma empresa de familiares. 
A proximidade do poder traz muitas vantagens de que estes atores não querem abdicar. 
Deslumbrados, e apesar de conhecedores dos mecanismos de corrupção com que convivem, tentam demarcar-se. 
Mas são igualmente cúmplices. 
Como reza o ditado, "é tão ladrão o que vai à horta como o que fica à porta". E a maioria destes políticos são os porteiros. 
Só a sua revolta e a denúncia face às situações que tão bem conhecem poderia regenerar o poder autárquico. 

Paulo Morais

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