sábado, 5 de setembro de 2009

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE

Não há machado que corte
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
Num amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre

Carlos de Oliveira
O Nosso Amargo Cancioneiro

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

REBANHO

Poeira que o granito
desprende na sua
respiração difícil: prata
sem consistência, faz
pensar num resíduo de estrelas
acumulado pela noite; cor
e peso na leveza da lã,
cai sobre os animais? ou paira
etérea, estranha
à essência da terra?

A segunda poeira nasce
quando se ouve
o toque trémulo dos cascos contra
o chão; opõe-se
à que poisou nocturnamente
e a pedra agora exala;
resguarda o gado, isola-o,
cada vez mais densa,
dessa ameaça do ar.

Quanto ao pastor,
como pode um detrito
de astros lembrar-se dele?
embora a natureza
de ambos pareça confluir:
mas apenas na intuição
sublunar; tão predisposta
a conceber um só
deserto inicial.

Carlos Oliveira
Pastoral

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domingo, 7 de dezembro de 2008

LEITURA

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Carlos de Oliveira
Pastoral

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