terça-feira, 15 de setembro de 2009

[JORGE DE SENA] DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena
Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena

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1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

De Santa Bárbara chegaram os ossos do poeta

que a pátria exilou. Uns pulhas de um assim chamado Ministério

da Cultura, que não dão à poesia a mínima importância,

ergueram-se a esse gesto como se não se soubesse

quanto os poetas detestam, como tantas e tantas vezes

foi provado e a paródia eleiçoeira, desta vez,

fez promover, não por amor aos versos, certamente,

mas para marcar a determinação da pequenez

em que todos morrem de fome da fartura enfatuada

desta gente. A ocasião, como é comum dizer-se,

faz o ladrão, e a estes não escapam as oportunidades

que o brio predador lhes aconselha, sujando tudo em volta,

dando a tudo o que é grande a represália de sempre,

tal como a todos os poetas já fizeram, tal como fizeram

ao Botto e agora ao Sena fazem, que esperou

mais de trinta anos para que a terra portuguesa de vez o afeiçoasse,

notando-se que como clandestino aqui chegou, agora,

não pela obra dele ou os seus actos, mas pela solerte ratice da canalha

que nunca subirá a púlpitos para pedir desculpa do mal que nos tem feito

e à poesia sempre odiará por lhe saber o fantástico poder que a cilindra.

Brancos os ossos chegam às exéquias da trasladação que por demais tardou

e não há corais de crianças das escolas a entoar-lhe cânticos,

não se promove gente a ler-lhe os livros, não se lhe divulga a obra,

nem os telejornais abrem com a notícia da chegada justa,

a todos convocando não só a que assistam e aprendam, mas que usem

a sua arte de música e de palavras para a ampliar a verdade e a liberdade,

o corpo e os sentidos, a dignidade de resistir a tudo,

por mais que o vilipêndio se prolongue e se não salde nunca a dívida.

Não é para admirar. De humilhações, exílios e imbecilidades sofreu Jorge de Sena

durante toda a vida e este misto de preito e de omissão está na linha

do que a pandilha execrável é capaz, tratando-se de dar com uma mão

para tirar com a outra, como é próprio do descaramento e do oportunismo

que, imparável, os há-de condenar ao esquecimento de nunca terem nome,

nem espinha dorsal, nem verticalidade, nem ossos que alguma vez possam

passar por nossos.



Amadeu Baptista

domingo, 20 setembro, 2009  

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