Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.
Jorge de Sena
Não é que ser possível ser feliz acabe, quando se aprende a sê-lo com bem pouco. Ou que não mais saibamos repetir o gesto que mais prazer nos dá, ou que daria a outrem um prazer irresistível. Não:o tempo nos afina e nos apura: faríamos o gesto com infinda ciência. Não é que passem as pessoas, quando o nosso pouco é feito da passagem delas. Nem é também que ao jovem seja dado o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes de serem destruídos, as pessoas somem, e não mais voltam onde parecia que elas ou outras voltariam sempre por toda a eternidade. Mas não voltam, desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias mudam. Desertas ficam praias que brilhavam não de água ou sol mas solta juventude. As ruas rasgam casas onde leitos já frios e lavados não rangiam mais. E portas encostadas só se abrem sobre a treva que nenhuma sombra aquece.
O modo como tínhamos ou víamos, em que com tempo o gesto sempre o mesmo faríamos com ciência refinada e sábia (o mesmo gesto que seria útil, se o modo e a circunstância persistissem), tornou-se sem sentido e sem lugar.
Os outros passam, tocam-se, separam-se, exactamente como dantes. Mas aonde e como? Aonde e como? Quando? Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos, a que horas do dia ou da noite, não sei. Apenas sei que as circunstâncias mudam e que os lugares acabam. E que a gente não volta ou não repete, e sem razão, o que só por acaso era a razão dos outros.
Se do que vi ou tive uma saudade sinto, feita de raiva e do vazio gélido, não é saudade, não. Mas muito apenas o horror de não saber como se sabe agora o mesmo que aprendi. E a solidão de tudo ser igual doutra maneira. E o medo de que a vida seja isto: um hábito quebrado que se não reata, senão noutros lugares que não conheço.
POEMA MANUSCRITO NAS FOLHAS BRANCAS DE UM LIVRO JÁ ESQUECIDO
Não teimes, não insistas, não repitas, mas vive como quem, teimando, insiste, e, porque insiste, como que repete. Esse das sombras o silêncio fluido escoando-se por ti quando não passas, parado que ouves, não mais é que o tempo de hoje em que vives só alheias vidas, de ti alheadas qual de ti vividas.
Por outro tempo te criaste impuro, difuso e firme, no clamor de versos que os tempos de hoje reconstroem como delidas cartas um fogacho acendem. Outro que seja, é teu, pois o escutaste na dor de apenas ser, na dor de ouvir quão desatentos menos homens são os homens todos. Teu, sem que teu seja, que destes e dos outros se fará serena ciência de possuírem tudo o que juntares para ser roubado, quando, parado no silêncio fluido, se escoava nele o próprio estar na vida, atento como estavas, poeta como eras daquele ser não-sendo que eram todos em ti, dentro de ti, à tua volta.
Uma pequenina luz bruxuleante não na distância brilhando no extremo da estrada aqui no meio de nós e a multidão em volta une toute petite lumière just a little light una picolla... em todas as línguas do mundo uma pequena luz bruxuleante brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós entre o bafo quente da multidão a ventania dos cerros e a brisa dos mares e o sopro azedo dos que a não vêem só a adivinham e raivosamente assopram. Uma pequena luz que vacila exacta que bruxuleia firme que não ilumina apenas brilha. Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda. Muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Brilhando indeflectível. Silenciosa não crepita não consome não custa dinheiro. Não é ela que custa dinheiro. Não aquece também os que de frio se juntam. Não ilumina também os rostos que se curvam. Apenas brilha bruxuleia ondeia indefectível próxima dourada. Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha. Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha. Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha. Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha. Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha. Uma pequenina luz bruxuleante e muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Apenas como elas. Mas brilha. Não na distância. Aqui no meio de nós. Brilha
Dizia uma vez Aquilino que em Portugal os filósofos se exilavam ainda em seu país (v.g. Spinoza). O curioso porém é que também ninguém foi santo lá: os nascidos em Portugal foram todos sê-lo noutra parte (St. António, S. João de Deus, etc.) e outros santos portugueses, se o foram, terá sido, porque, estrangeiros que eram e em Portugal vivendo, não tiveram outro remédio (v.g. Rainha Santa) senão ser santos, à falta de melhor. Oh país danado. Porque os heróis também nunca tiveram melhor sorte (Albuquerque e outros que o digam) a menos que tivessem participado de revoluções feitas "em vez de" (v.g. o Condestável que fez fortuna e a casa de Bragança e acabou só Santo quase).
Dona Semifofa erguendo o dedo mindinho arqueado em asa sobre a asa da chávena (ou xícara) disse: - - Eu sempre soube que poetas não são gente em quem confie uma senhora - e num sorvinho delicado rematou a mágoa de cinquenta primaveras. O licorne, num doce balançar do chifre esguio, gravemente assentiu, um pouco perturbado pela insistência obnóxia e recatada com que a discreta dama confundia, ou mais que a dama os olhos vagos dela, o chifre legendário e o metafórico que de entre as pernas longo lhe descia ou já de perturbado não pendia.
Torcendo as ancas disfarçadamente para encobrir das vistas semifofas essa homenagem à inocência delas (como o cavalheiro que pousando a mão assim se esconde em pudicícia o quanto não esconda muito mais que a discrição obriga), D. Gil cofiou a capriforme pêra e de soslaio viu que Dona Semifofa do branco em ferro assento resvalava para a verdura em que as florinhas eram de cores variegadas, salpicantes. D. Gil era o licorne, e disse com voz cava: - Mas eu também, minha senhora, nunca acreditei que de confiança eles fossem. Se acreditasse, como não teria a mágoa imensa de não ser centauro? -
No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou: - Centauro, para quê? Não há centauros. Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.
Tratam-te os que te lambem e legitimam, por Sr. Presidente do Conselho. Chamam-te os que ainda acreditam nas Universidades que degradaste, por Professor Doutor. No tempo em que eras fascista sem vergonha passavas por ser o Chefe, e os leonardos, teus chacais, escutavam a tua Palavra. Depois, quando inventaste a “democracia orgânica”, gostavas que te apelidassem de Chefe... do Governo. Mas, no isolamento e no silêncio e na treva, que é o sítio vago onde estaria a alma que te fugiu aterrada com o cheiro de arganaz podre a que o teu cérebro e o teu coração fedem, tu sabes que não és nada disso. Presidente de quê? De um Conselho de lacaios? Chefe de quê e de quem? Dos assassinos e ladrões impunes que proteges, para que eles te protejam o couro ressequido que nunca terá conhecido para que dignidade e que alegrias serve a carne humana? Professor de quê? Doutor em quê? Professor de desmoralização, de ceticismo, de corrupção, de crueldade, de hipocrisia, de blasfêmia, de infâmia? Doutor em quê? Em técnicas de Censura e de Polícia, que são toda a tua política, toda a tua filosofia, toda a tua religião? Some-te, rato! Mergulha de uma vez no esgoto de oito séculos de erros que te criaram e engordaram, como excremento que és, venenoso, estéril, impotente. Rato, apenas, rato. As comemorações brilhantíssimas do 5 de Outubro em São Paulo, o que elas significam de unidade na luta democrática, o que elas projectam no futuro como esperança de dissolução sulfúrica da tua presença pestilenta, nada disso chegará aos teus ouvidos surdos, às tuas unhas negras da pele dos mártires que esfolaste, à tua cauda imunda, com que fustigas um dos mais gloriosos e heróicos povos da terra. Não lerás, também porque és analfabeto e nunca leste nada, o telegrama em que os democratas reunidos para comemorar a Revolução que hoje simboliza a unidade de todos os portugueses, sem distinção de raça, religião ou credo político, na luta contra a tua baba peçonhenta, com que tens envenenado tanto patriota ingênuo que no Brasil honra o trabalho português, pedem a tua demissão. E fazes bem, fazes bem. Tu não podes demitir-te, porque nunca foste nomeado. Tu és o símbolo da ilegalidade, da arbitrariedade, da injustiça, da opressão. Não te demitas, some-te! Some-te, rasteiro como nasceste, como subiste, como governaste, como imitaste nos teus discursos, laboriosamente vomitados, uma língua admirável que, rato que és, nunca soubeste falar. Some-te tal como viveste, com a mesma covardia com que mandaste assassinar, roubar, violentar. Some-te rato, com a tua bota de elástico, a tua pena de pato, a tua ceroula de fita, as tuas letras gordas, a tua finança de chácara, a tua economia de campônio, a tua política de traidores à Pátria. Some-te assim, rasteiro e mesquinho, como vieste! Some-te, rato! E que o ódio de um Povo, e o desprezo de todos os amantes da liberdade e da justiça, saibam esquecer o momento de nojo e de vergonha e castração que tu longamente foste, em mais de trinta anos de horror e reles mesquinhez. Que nem a tua pele piolhosa fique apodrecendo na memória das gentes, mais que como imagem da peste política e moral! Some-te rato!
AVISO A CARDÍACOS E OUTRAS PESSOAS ATACADAS DE SEMELHANTES MALES
Se acaso um dia o raio que te parta (enfim obedecendo às fervorosas preces dos teus muitos amigos e inimigos), baixa de repente gigantesco e fulminante sobre ti, e mesmo se repete: e não te quebra todo, e como desasado, ou quem morto regressa à sobrevida, tu sobrevives, resistes e persistes, em estar vivo (ainda que à espera sempre de novo raio que te parta em cacos) — — tem cuidado, cuidado! Arma-te bem não tanto contra o raio mas principalmente contra tudo e todos. Sobretudo estes. Ou sejam todos quantos pavoneiam o consolo inocente de pensar que a morte não os tocou nem tocará jamais.
Porque não há ninguém por mais que te ame, ou por mais que seja teu amigo (e, com o tempo, os amigos, mais que as criaturas fiel ou infielmente bem-amadas, gastam-se), que te perdoe que tu não tenhas estourado, no momento em que se soube que estouravas. É uma «partida» (ou um «regresso» sem piada nenhuma) absolutamente e aterradoramente inaceitável, humanamente e vitalmente imperdoável. Pelo que, sobrevivente, pagarás, como se diz, com língua de palmo. Se és um pobretana, solitário, abandonado, entregue aos teus fantasmas que são um palpitar, um estertor, uma opressão no peito uma tontura, um como que silêncio negro, podes estar certo e seguro que nem amigo nem amante está livre de ocupações prementes para te acudir. Uma que outra vez apenas, para alívio dos borborigmas morais dos seus estômagos, irão visitar-te carinhosos. Outros tentarão acudir-te, ajudar-te, como podem, e quando em desespero tu reclamas.
Não contes com mais nada senão morte. Se tens família, amando-te sem dúvida, inteiramente delicada a ti que seja ou é, não penses que não és constante imagem sem desculpa alguma de andar pela casa, um pouco vacilante, às vezes suplicando uma pílula, alguma companhia, ou mesmo atrevendo-te a fazer referências tidas de mau gosto à espada que para onde vás segue suspensa sobre a tua cabeça. Porque ninguém, ninguém, até contraditoriamente porque te amam, suportam que não sejas quem tu eras, mas só morte adiada, o que é diverso do horror de um cancro que não se sabe quando matará mas é criatura de respeito, crescendo em ti como se estiveras grávido. Assim, meu caro, com coração desfeito sem metáfora alguma, és apenas uma indecorosa e miserável chatice.
Portanto, irmãos humanos, se estourais, estourai por uma vez aliviando quem vos quer ou não quer por uma vez.