VIVER É MUITO PERIGOSO...
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de António Dó,
tinha um grado jagunço, bem remediado de posses — Davidão era o nome dele. Vai,
um dia, coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de
morrer. Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais pobres,
chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas, em lei de
caborje — invisível no sobrenatural — chegasse primeiro o destino do Davidão morrer
em combate, então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino
aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de feitiço do
contrato ele muito não acreditava. Então, pelo seguinte, deram um grande fogo,
contra os soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco.
Combate quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A
de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. Ah, e assim e assim
foram, durante os meses, escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos
eles não saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja: isto mesmo
narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num
caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de
valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final
sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o
Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste! Devolvia o
dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do
discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se
provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa
limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este
mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de
sarrafaçar. A vida disfarça? Por exemplo. Disse isso ao rapaz pescador, a quem
sincero louvei. E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de
realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente só que o
Davidão resolveu deixar a jagunçagem — deu baixa do bando, e, com certas
promessas, de ceder uns alqueires de terra, e outras vantagens de mais pagar,
conseguiu do Faustino dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais
deles, ignoro. No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.
Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é
muito perigoso...
João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas
Etiquetas: João Guimarães Rosa, Prosa
