terça-feira, 21 de julho de 2009

PARA ALÉM DO RODRIGUES, QUANTOS VÃO CAIR NO DISTRITO DE PORTALEGRE?

Comandante distrital suspenso



O Comandante Operacional Distrital dos Bombeiros de Évora (CODIS), Jorge Rodrigues, foi suspenso da actividade e alvo de um processo disciplinar devido a alegadas irregularidades operacionais. Em sua substituição, a Autoridade Nacional de Protecção Civil nomeou no dia 26 de Junho José Maria Lopes Ribeiro, que vinha desempenhando funções de segundo comandante distrital.

Fonte ligada ao processo referiu ao nosso jornal que sobre o ex-CODIS recaem, entre outras suspeitas, o desvio de fundos dos bombeiros para proveito próprio e falsificação de documentos constantes no curriculum.

Contacto ontem pelo CM, Jorge Rodrigues garantiu que as acusações "não correspondem à verdade" e que não foi alvo de qualquer suspensão ou processo disciplinar.

"Eu é que me demiti. Já tenho 22 anos de bombeiro e estava a ficar um pouco cansado disto", referiu.


A.M.S.
Correio da Manhã

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sexta-feira, 8 de maio de 2009

O ALENTEJO E O SEU PATRIMÓNIO GEOLÓGICO

O chão que pisamos no Alentejo, desde a planície a perder de vista aos alcantilados rochosos da Serra de S. Mamede, não foi sempre como hoje se nos apresenta.
Mudou radicalmente no decorrer de uma velhíssima história geológica.
Com as suas planuras, vales e serranias, a paisagem alentejana, bem como a de todo o interior do País e da Península Ibérica, é o que resta de uma grande cadeia montanhosa, com mais de trezentos milhões de anos, que percorreu o que é actualmente o sul da Europa e o noroeste africano.
Quase completamente arrasada pela erosão no decurso dos tempos que se lhe seguiram, pôs a descoberto toda a complexidade das suas entranhas, hoje esventradas, de que fazem parte diversos tipos de rochas geradas em profundidade, a partir de magmas incandescentes, e muitos outros, representados por rochas formadas nos mais diversos ambientes, desde desertos áridos e florestas tropicais a mares quentes e frios, litorais e profundos, etc., muitas delas transformadas ao longo dessa imensidade de tempo.
Esta grande cadeia de montanhas resultou, por seu turno, do enrugamento e elevação de milhares de metros de espessura das respectivas camadas rochosas, a maior parte das quais acumuladas no fundo de um grande oceano que aqui existiu há mais de 600 milhões de anos e que se fechou na altura, à semelhança do que está a acontecer ao Mediterrâneo, com a consequente elevação dos Alpes e das montanhas a eles associadas.


Temos, pois, aqui documentos de uma longa e complexa história que sabemos e podemos contar.

Dos antiquíssimos terrenos da região de Arronches - Campo Maior, terras emersas ao tempo desse oceano, às actuais planícies aluviais do Sado, com escassos milhares de anos, estão representadas, nesta que é a maior província de Portugal, formações geológicas de todas as eras da história da Terra.

Os mármores de Estremoz - Vila Viçosa, Viana e Trigaches, a Faixa Piritosa, em especial, em Aljustrel e na região de Neves - Corvo (Castro Verde - Almodôvar), importantes reservas de cobre, estanho, zinco e chumbo, e, ainda, a perspectiva animadora de exploração do ouro em Montemor-o-Novo, constituem georrecursos mineiros da maior importância para o país. Mas, para além deste valioso património económico no domínio da actividade extractiva, são muitas as ocorrências geológicas espalhadas por este Aquém-Tejo com valor como georrecursos culturais, classificáveis como monumentos naturais, na medida em que são documentos decifráveis, tantas vezes grandiosos e espectaculares, dos mais variados episódios de uma história muito antiga, não só local e regional, como nacional e, por vezes, global. Com dimensões que vão de um simples afloramento rochoso, a um sítio ou a toda uma paisagem, tais monumentos continuam à espera de ser convenientemente salvaguardados, antes que o progresso civilizacional, o betão e o asfalto os engulam e destruam para todo o sempre.
Numa época em que os Parques Geológicos e o Turismo de Natureza proliferam por todos os países com preocupações ambientais, urge localizá-los, valorizá-los e dotá-los de condições de visibilidade para fruição por parte do grande público, permitindo-lhe conhecer a sua história mais antiga e, ainda, uma melhor integração no todo natural.


Sem esquecer uma parte importante do Geoparque Naturtejo (uma honrosa realidade no nosso território), incluem-se, entre as mais conhecidas ocorrências, algumas pedreiras e minas desactivadas ou esgotadas, como as do Lousal e São Domingos, que, para além dos aspectos geológicos, guardam testemunhos relacionáveis com a vida das respectivas populações, numa espécie de arqueologia industrial do maior interesse histórico, etnográfico e sociológico.



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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

2007/2013 - DOIS ANOS DE ATRASO?

INALENTEJO - Abertas candidaturas

No âmbito do INALENTEJO - Programa Operacional Regional do Alentejo 2007/20013, encontram-se abertas, mediante concurso, as candidaturas a várias tipologias, nomeadamente Gestão Activa de Espaços Protegidos e Classificados, Prevenção e Gestão de Riscos Naturais e Tecnológicos-Acções Imateriais, Prevenção e Gestão de Riscos Naturais e Tecnológicos-Acções Materiais e Requalificação da Rede Escolar de 1º Ciclo do Ensino Básico e da Educação Pré-Escolar.

As candidaturas decorrem até às 17 horas, do dia 31 de Março de 2009 e deverão ser submetidas pela Internet, através de formulário electrónico disponível no sítio da Autoridade de Gestão do INALENTEJO, em www.ccdr-a.gov.pt/poaqren.

A tipologia da gestão activa de espaços protegidos e classificados tem disponíveis dois milhões de euros, enquanto que a requalificação da rede escolar de 1º ciclo do ensino básico e da educação pré-escolar conta com uma dotação orçamental de 2,4 milhões de euros. Já a prevenção e gestão de riscos naturais e tecnológicos envolve, para acções imateriais, 750 mil euros, atingindo um milhão de euros as acções materiais.

Jornal Fonte Nova
Edição nº 1625
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009



Já sabemos que por aqui o tempo anda devagar...

Mas dois anos de atraso.


PORRA

É

TEMPO

DEMAIS!

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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ALENTEJO E ALENTEJANOS

Há uma vintena de anos trouxe do Alentejo interior uma comadre de visita a uma filha residente em Almada – a velha Almada anterior à, tantas vezes, desumanizada explosão urbanística. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra, esta minha comadre, que aqui vinha pela primeira vez, dava mostras de um certo mal-estar.

– Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços!

E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, ouvi-a exclamar: - Aqui, sim, já a gente respira!

Em sua opinião, voltáramos ao Alentejo.

E tinha razão!

Administrativamente integrada na Estremadura, a península de Setúbal só a ela se liga pela Ponte 25 de Abril e pelo grande fluxo de cidadãos, que, de uma e de outra banda do chamado Gargalo do Tejo, o atravessam diariamente nos dois sentidos, a caminho do trabalho e no regresso a casa. Como geólogo contactei de muito perto com os terrenos e também com as gentes desta região, tendo tido oportunidade de constatar aqui a continuidade territorial e cultural do Alentejo. São as fábricas de cortiça e de transformação de carne de porco, são os mercados, onde não faltam o pão e o queijo alentejanos, os poejos, os cardinhos e as beldroegas, são os restaurantes, as tabernas e as vendas à moda antiga, as colectividades culturais e recreativas.

O substrato geológico e os condicionalismos climáticos que caracterizam o Alentejo foram favoráveis à vegetação que aqui se desenvolveu, parte dela indígena e outra parte introduzida, bem como à ocupação animal, também ela autóctone e importada. O montado e o porco preto dele dependente, a vinha, o olival e a seara de pão, a tetralogia mediterrânea, no dizer de Alfredo Saramago, constituem elementos maiores tradicionalmente referidos nesta paisagem. Mas não são menos alentejanos, quase sempre esquecidos, os campos de arroz da bacia do Sado, o extenso areal e os alcantilados da linha de costa ou os densos pinhais da franja litoral. Mediterrâneo por natureza e atlântico por posição, como nos ensinou Orlando Ribeiro, os seus parâmetros marcaram as populações que aqui viveram, do mesmo modo que continuam a marcar o alentejano dos dias de hoje.

Os vestígios mais antigos da presença dos nossos antepassados em terras alentejanas remontam ao Paleolítico e estão representados, em especial, por utensílios em pedra lascada encontrados, em abundância, nos terraços fluviais de alguns dos seus rios, e por não menos importantes gravuras rupestres, como as trazidas às primeiras páginas dos jornais, na sequência dos trabalhos na barragem de Alqueva. Primeiro como recolectores, apanhando bolotas nos então muito mais cerrados montados, pescando e caçando, estes nossos longínquos avós acabaram por se tornar pastores e agricultores. Tal fixação levou à construção dos primeiros povoados nas colinas sobranceiras aos principais cursos de água. A densidade de construções megalíticas (antas, menhires e cromeleques), característica ímpar desta região, testemunha a importância da sociedade agropastoril que aqui teve berço há mais de 5000 anos. Aqui se instalaram, durante mais ou menos tempo, ou por aqui passaram ligures e celtas, fenícios, gregos, cartagineses e romanos, uns nas suas rotas comerciais e outros em busca do ouro, da prata, do cobre e do estanho, com relevo particular para os romanos. Estes, chegados no século III a.C., deixaram-nos importantes marcas civilizacionais da sua ocupação e domínio político de, pelo menos, meio milénio. Antes de serem Alentejo, estas terras constituíram parte da Hispania Ulterior, na sequência da divisão administrativa criada na Península pelo invasor. Estas mesmas terras foram, mais tarde, a metade sul da Lusitânia, a mais ocidental das três províncias ibéricas do Império Romano.

Outra importante presença, que ainda hoje se faz sentir, foi a islâmica, iniciada no século VIII com a conquista de Mértola, por Muçá ben Nusayr, pondo fim à dominação visigótica, a última das invasões levadas a efeito por povos do norte da Europa, habitualmente referidos como bárbaros. A ocupação muçulmana teve aqui uma longa permanência, cerca de cinco séculos, que só terminou com a reconquista cristã, no século XIII Com a islamização, estas terras fizeram parte do Garb, que quer dizer Ocidente, designação naturalmente usada pelos que vinham de oriente, neste caso, os invasores árabes. Mais precisamente, o seu nome foi al Garb al-Andaluz, que significa o ocidente da Hispânia, que incluía, não só o Alentejo, como também, o Algarve e a Andaluzia, do outro lado do Guadiana.

A civilização muçulmana deixou aqui muito dos seus saberes, não só os tidos por eruditos, como os do melhor aproveitamento da terra, numa das regiões mais áridas do território que é hoje o nosso. À unidade de coabitação entre a Andaluzia, o Alentejo e o Algarve, durante mais de um milénio, criada pelos invasores romanos e continuada pelos conquistadores islâmicos, seguiu-se a separação, delineada ao sabor da reconquista e das disputas fronteiriças entre o reino de Portugal e o de Castela e Leão, ao longo do Guadiana. Não é, pois, por acaso, que há bastantes traços comuns entre nuestros hermanos andaluces e os alentejanos, por um lado, e entre estes e os algarvios, por outro.

Após a reconquista, concluída por D. Afonso III, e na sequência da reorganização territorial, foi criada a comarca de Antre Tejo e Odiana (Entre Tejo e Guadiana), designação antiga que resistiu ao tempo através da poética de Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco, e que corresponde grosso-modo, ao actual Alentejo, tendo por limite meridional as alturas definidas pelas serras de Caldeirão e de Monchique. Anteriormente, o termo Alentejo, como nome de região, não existia. Com o significado de para além do Tejo, foi criado pelos conquistadores vindos do norte, do jovem reino de Portugal. O Ultra Tagum, no latim dos eruditos de então, deu Além do Tejo, no dialecto romance, que era o que se falava aí, ao tempo dos nossos primeiros reis. Tendo este grande rio por fronteira natural, as terras que lhe ficavam a sul estavam, pois, para além dele.

De todos estes povos, os que por aqui passaram e que aqui viveram, herdámos genomas e culturas. O alentejano é, pois, o produto desta longa e complexa história e, naturalmente, da que se lhe seguiu, marcada sobretudo por um regime de propriedade de “muita terra a dividir por poucos” (Mattoso e Daveau, 1997), ou de “Terra pouca para muitos, terra muita para poucos”, como cantou Manuel Alegre (1996), num longo percurso condicionado pela paisagem física em que se desenrolou. A diversidade fisiográfica do Alentejo determina que, dentro de uma certa unidade, como é muitas vezes apresentada, haja diferenças sensíveis de local para local. Há um Alentejo interior, a oriente, semi-árido, dominado pela azinheira, e um outro, a ocidente, menos seco, influenciado pelos ventos húmidos do Atlântico, onde o montado de cortiça impera. Por outro lado, a escarpa de falha da Vidigueira, um acidente tectónico que limita a sul a serra de Portel, marca igualmente, como um degrau, a separação entre duas superfícies bem assinaladas pelos geógrafos, a de Évora, a norte, mais elevada e acidentada, e a de Beja, mais rebaixada e de mais vastas planuras.

São alentejanos os madeireiros serranos de Portalegre e os seareiros das planícies que se estendem para Sul. São alentejanos os cultivadores de sequeiro, os regadores do vale do Caia e os que vivem dos arrozais alagados dos campos aluviais dos seus grandes rios. São ainda alentejanos os que habitam longa faixa litoral, que se estende da restinga de Tróia às falésias atlânticas do Algarve. Fala-se do falar alentejano, da cozinha alentejana, dos cantares do Alentejo e contam-se divertidas anedotas, visando os seus habitantes. Alentejanos são todos os da margem esquerda do Tejo e se o nome nada tem de especial, quando dito por alguém da margem norte, constitui um paradoxo sempre que são os próprios alentejanos que assim se autodenominam, uma vez que, sendo e estando do lado sul do Tejo (para eles o lado de cá, e, portanto, aquém do Tejo) se estão a afirmar além dele, como bem lembrou José Mattoso. Alentejano é, pois, o nome pelo qual esta comunidade se auto-identifica sem se dar conta que, em rigor, o termo só faz sentido quando dito por estremenhos, beirões, minhotos ou transmontanos. Nunca por eles próprios e, muito menos, por algarvios. Nestas condições dever-nos-íamos considerar “aquentejanos”, sugestão, aliás, já avançada no século XIII, mas que não fez vencimento. Com efeito, dois documentos assinados em Beja, em 1284, auto-situam-se no “Aaquem Tejo”.

No Alentejo de hoje, as aldeias e as pessoas estão a urbanizar-se mercê, sobretudo, de dois factores determinantes: - a facilidade dos transportes, que as põe a escassos minutos das cidades vizinhas, e a televisão, que tudo uniformizou. Estes dois veículos da modernidade puseram fim ao isolamento de séculos, situação que é uma realidade, não só aqui, como por todo país. Porém, não obstante esta modernização, a cultura dos alentejanos, enraizada ao longo de gerações, e a persistência de uma condição ancestral por demais conhecida, fizeram e continuam a fazer deles aquilo que gostamos que digam de nós e que Manuel Alegre tão bela e rigorosamente cantou na linguagem universal dos poetas, em “O Estilo”, 1996:
Incapaz de ser senão diferente
há um modo de calar e um falar claro
um olhar cara a cara e frente a frente
um viver devagar que tudo é raro
e único e só assim urgente.


A. M. Galopim de Carvalho
Texto adaptado de …Com Poejos e Outras Ervas

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terça-feira, 14 de outubro de 2008

ALENTEJO

Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que, à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.




O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.




Portugal nasceu no Norte, mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade; Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras, um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.




Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia, para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que, para o homem comum, fica muito longe, para um alentejano, fica já ali. Para um alentejano, não há longe, nem distância, porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.




Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.




D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»

Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.

Mas, para que uma pessoa se ria de si própria, não basta ser ridícula, porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.

Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.

E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.

Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor. «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano. «Então por que é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... mas com quem?»

Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!



É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?


Santana-Maia Leonardo
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Adalrich Malzberder
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CEIA DA SILVA CANDIDATO À ENTIDADE REGIONAL DE TURISMO DO ALENTEJO


O deputado socialista Ceia da Silva anunciou hoje a sua candidatura à presidência da Entidade Regional de Turismo do Alentejo ERTA e aclarou que caso vença as eleições abandonará o cargo de deputado na Assembleia da República.


Espero ganhar as eleições para a ERT do Alentejo e se obter a confiança das autarquias, dos agentes públicos e privados, obviamente que deixarei a Assembleia da República.


RÁDIO PORTALEGRE

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